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Artes Plásticas

Vida e morte assombram Raquel Nava

Criada entre objetos de arte e livros de medicina, a artista brasiliense desenvolve uma linguagem que empresta vigor a objetos inanimados

Repórter de Artes Plásticas12/10/2015 06:09, atualizado 13/10/2015 14:35
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Vida e morte assombram Raquel Nava
Vida e morte assombram Raquel Nava

Contados 220 passos separam o ateliê de Raquel Nava e a Referência Galeria de Arte, na distância entre o Bloco D e o Bloco A da comercial da 205 Norte, a chamada Babilônia Norte. Na Referência, em cartaz até 17/10, a mostra “Passeio Selvagem” dá conta da produção mais recente da imprevisível artista brasiliense de 34 anos.

Atrás da pesada porta de ferro de seu ateliê, Raquel trabalha todas as tardes em pintura, desenho, fotografia e objetos vários. Sua atual série de pinturas, como pode ser visto na Referência, envolve grandes superfícies de esmalte sintético e tinta acrílica, espalhadas sobre a tela, criando diferentes relevos e texturas.

Além dos tradicionais pincéis, Raquel usa estiletes e facas. Veste luvas cirúrgicas e estoura com a ponta da faca pequenas bolsas de tinta seca sobre a tela, revelando tinta ainda líquida no seu interior, agora a escorrer pela superfície e formar um novo desenho. Um processo que a artista descobriu por acaso. Então passou a se apropriar dele para fazer uma pintura que, em última instância, nunca é definitiva, nunca está pronta, sempre pode levar a um segundo momento. Um trabalho que, em largos aspectos, parece estar vivo.

https://youtu.be/ToT8uy0npws

Medicina e artes plásticas
O pai de Raquel Nava é cirurgião plástico. Um de seus dois irmãos foi residente no Hospital de Base e hoje é patologista no Center Institute of Cancer, em Londres. Eles assim dão prosseguimento à linhagem de médicos da família, uma genealogia que tem no anatomista e escritor mineiro Pedro Nava, tio-avô de Raquel, seu personagem mais proeminente.

A mãe de Raquel trabalhou por anos no departamento de artes visuais da Funarte, depois esteve envolvida em uma galeria de arte ali mesmo na 205 Norte, a Arte Futura, onde hoje fica o Espaço Cena. De tal forma, Raquel cresceu cercada por objetos de arte, nos cômodos de sua casa, e livros de medicina, nas estantes de seu pai.

Quando criança, catava grilos no jardim e os guardava em potes vazios de sorvete. Quando adolescente, amarrava lençóis para escapar escondida pela janela e fugir para as baladas eletrônicas das boates Wlöd e miQRa. Aos 17 anos, fez intercâmbio em Amsterdam e bateu perna pela Europa durante um ano. Foi parar em Barcelona, onde passou uns dias na casa de uma amiga de sua mãe, a professora de arte Graça Ramos, que aliás logo depois também estaria envolvida com a galeria Arte Futura e hoje assina a curadoria da mostra “Passeio Selvagem”.

Ao voltar da Europa, já estava meio claro para Raquel que o Instituto de Artes da Universidade de Brasília seria o melhor lugar para conjugar seus interesses. E não pararia mais de viajar. Fez residência artística em Buenos Aires e participou de coletivos de arte em Berlim. Pintou dorsos de elefantes na Índia e fotografou cangurus atropelados nas estradas da Austrália. Viajou até o deserto de Nazca, no Peru, para esquentar seus estudos acadêmicos sobre a cochonilha do carmim.

“Acho meio bobo falar isso, porque sou bastante cética, mas acredito em convergências de energias e de pessoas”, ela diz. “Gosto de viajar sozinha, me estabelecer em uma base e a partir dali me movimentar, ter encontros fortuitos com lugares e pessoas, com quem posso até não manter contato para o resto da vida, mas que serão fundamentais para mim enquanto durar aquele tempo.”

E bem que ela agora gostaria de retornar à Alemanha em intercâmbio. Por isso, neste momento, está batalhando para, em sua carta de intenções, conseguir explicar em inglês este ponto peculiar que atravessa em sua vida artística.

Detalhe da instalação "A Morte Chega Cedo" *Raquel Nava/Divulgação*
Detalhe da instalação “A Morte Chega Cedo” *Raquel Nava/Divulgação*


Aulinhas de taxidermia
Raquel Nava ultimamente tem ganhado presentes esquisitinhos. Desde que levou à Alfinete Galeria a mostra “A Morte Chega Cedo”, em janeiro, ela já recebeu de amigos e admiradores um canarinho morto, um crânio de boi e uma mandíbula de cavalo.

Depois de trabalhar com performance e fazer contato e improvisação, depois de se exercitar com a videoarte e enquanto segue franca atividade como pintora, desenhista e fotógrafa, Raquel Nava afinal encontrou um novo interesse, uma nova obsessão: a taxidermia na arte contemporânea.

“A Morte Chega Cedo”, assim, era uma instalação protagonizada por animais. Na peça principal do ambiente montado por Raquel na Alfinete, um lagarto tiu observava, do alto de uma poltrona de couro, um ratinho bebericar leite em uma bacia de metal. Quer dizer, nem o tiu observava, nem o ratinho bebericava. Afinal, esses dois personagens eram apenas objetos inertes, dois corpos taxidermizados.

Raquel ali estava dando um passo além num pensamento que já vinha de antes. Na série fotográfica “A Vida É uma Espuma”, por exemplo, ela conciliava conchas marinhas com esponjas industriais, uma sobre a outra, numa tentativa de restabelecer o vínculo biológico que aquele objeto cotidiano e caseiro ainda guarda com as esponjas do mar.

Foto da série "A Vida É uma Espuma" *Raquel Nava/Divulgação*
Foto da série “A Vida É uma Espuma” *Raquel Nava/Divulgação*

Mas, se hoje em dia Raquel até ganha ossadas e bichos mortos, antes não era fácil para ela encontrar os protagonistas de suas fotografias e instalações. Tentou no Ibama, no Zoológico e no Instituto de Biologia da UnB. Deu para trás, todas essas vezes, diante das burocracias mil que lhe eram exigidas. Até que, no final de 2014, Raquel encontrou abrigo e cumplicidade no Hospital Veterinário da UnB.

César Leão, o taxidermista graduado em filosofia que responde há cinco anos pelos animais mortos do Hospital Veterinário, foi apresentado a Raquel por um amigo em comum. Eduardo Belga, desenhista e professor do Instituto de Artes, costuma levar seus alunos para praticarem desenho tendo como modelos as peças da coleção de taxidermia que César vem montando. E foi assim que Raquel pôde conhecer o lagarto e o ratinho que passearam pela Alfinete Galeria e também pelo Museu Nacional. Essa parceria com o Hospital Veterinário deu nova vida para Raquel Nava.

“Às vezes, acho que é melhor arranjar um emprego normal e deixar de lado essa ideia de ser artista plástica”, admite Raquel. “Mas sempre quando penso em largar tudo, acontece alguma coisa que me puxa com toda força, me traz de volta.”

Raquel Nava agora quer aprender taxidermia com César Leão no Hospital Veterinário. A primeira aula está marcada para a terça-feira desta semana. “Posso ser sua estagiária aqui, não posso?”, ela tinha pedido pra ele, dias antes, com um sorriso no rosto e novas ideias na cabeça.

Até 17/10, na Referência Galeria de Arte (205 Norte, Bloco A, Loja 9; 3363-3501). De segunda a sexta, das 12h às 19h; sábados, das 12h às 17h. Entrada franca. Livre. No sábado (17/10), às 17h, haverá uma visita guiada com Raquel Nava e a curadora Graça Ramos.