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Não, Lêda Watson nunca quis pintar. Ela acredita que a pintura é uma técnica que se domina e, uma vez dominada, pronto, já perdeu a graça.  Enquanto a gravura, notadamente a gravura em metal, vem mantendo Lêda ocupada há contados 44 anos. Sete horas por dia, cinco dias por semana.

E sempre algo lhe escapa. Mas justamente é esta a graça: correr atrás do que lhe escapou há pouco. “Fiz oito anos e meio do curso de Belas Artes e tenho feito gravuras há 44 anos. Nunca me canso, ainda tenho mil ideias e muito a aprender.”

Muito a aprender, muito a ensinar. Na Paris da década de 1960, a carioca Lêda Watson foi aluna de Gotthard Johnny Friedlaender, mestre gravador e desenhista, de origem polonesa, que correu metade da Europa fugindo das tropas nazistas até conseguir se firmar na França. Mais do que as diferentes técnicas de gravura e o apreço pela arte como expressão pessoal, Lêda ali foi incutida por uma ética que mantém até hoje.

“Tive uma chance muito rara e voltei com isso dentro de mim. A gravura é muito hermética, então eu tenho que passar isso adiante para os outros, esse é o meu dever moral, não acha?”, ela provoca. “Já tive mais de 400 alunos, ao longo de 30 anos aqui em Brasília, em grupos de cinco a cada vez, porque no meu ateliê não cabem mais que cinco.”

Memória histórica e afetiva
Lêda vive, trabalha e dá aulas em sua casa na QL 8 do Lago Sul. Ali recebe semanalmente os Gravadores Alucinados, atual grupo de amigos e alunos com quem divide seus conhecimentos e ao lado de quem já participou de exposições. Espalhadas pelas paredes do ateliê, um puxadinho feito a partir da antiga casa de máquinas de sua piscina, podem ser vistas gravuras de diferentes fases da carreira da anfitriã. E numa cartolina ali afixada, a artista se revela professora e enumera reproduções de obras feitas com diversas técnicas: água-forte, água-tinta, álcool e asfalto queimados, ácido puro…

Seguindo essa postura, ao mesmo tempo didática e apaixonada, Lêda Watson submeteu ao crivo dos editais da Caixa Cultural um panorama histórico e afetivo da arte brasiliense. Ora, justo ela, testemunha ocular do que é feito nesta cidade desde sua criação — ou desde antes de sua criação, pois vinha para o Planalto Central ainda na época da construção e andava na garupa do jipe de Oscar Niemeyer.

Fiz oito anos e meio do curso de Belas Artes e tenho feito gravuras há 44 anos. Nunca me canso, ainda tenho mil ideias e muito a aprender"
Leda Watson

A primeira etapa desse panorama, intitulada “Brasília 12 Ateliês”, ocupou parte das atividades de Lêda nos últimos quatro anos. Será aberta na Caixa Cultural no próximo dia 24 e fica em cartaz até 17 de janeiro. Ali ela vai tratar de alguns de seus mais caros colegas das décadas de 1970 e 1980, contemporâneos como Glênio Bianchetti e Milan Dusek, que serão revisitados através da vivência de ateliê experimentada por Lêda com cada um deles.

Afinal, Lêda Watson vive a arte a ponto de seu ateliê hoje em dia já ter se confundido com sua casa. A ponto de seus colegas artistas já terem se confundido com seus amigos pessoais.

Esta semana, ao percorrer os amplos espaços do Museu Nacional, passando os olhos pelas paredes, demorando o olhar nas gravuras ali expostas para a mostra “O Papel do Museu”, Lêda Watson se permitiu pensar alto por um instante e sorrir… “Gosto tanto de estar aqui, gosto tanto, porque aqui eu reencontro os meus amigos.”

“Brasília 12 Ateliês”. Abertura para convidados em 24/11. Visitação de 25/11 até 17/1, na Caixa Cultural (Setor Bancário Sul , Quadra 4, Lotes 3 e 4; 3205-9448). Terça a domingo, das 9h às 21h. Entrada franca. Livre.

 

 

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