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Um dos filmes mais aguardados do festival também é o pior concorrente à Palma em cinco anos, e duas pessoas são as maiores responsáveis por esta completa discrepancia entre promessa e resultado. Gus Van Sant, o diretor, já venceu a Palma de Ouro, no festival de 2003, com o incrível Elephant. Matthew McConaughey, o astro principal, vem de uma série de sucessos desde 2011, quando abandou as comédias romanticas e investiu em credibilidade artística. Ganhou o Oscar em 2014.

O encontro do diretor indie com o astro mainstream parecia perfeita. O resultado final, porém, ficou bem pior do que a soma das partes. The Sea of Trees não chega nem ao status de melodrama, pois existem no genero exemplos de primor. Afunda como uma parábola do clichê—uma anotação de guardanapo feita a mão por Paulo Coelho e Romero Britto.

McConaughey vive Arthur Brennan que chega em Tokyo e se dirige diretamente à Floresta Aokigahara, um parque nacional próximo ao Monte Fuji. Na entrada, já a pé, passa por várias placas com dizeres como “Sua vida é valiosa” ou “Pare, pense”. Também atravessa cordões de segurança e avisos de perigo. Finalmente, Brennan acha um local bonito, senta, e começa a engolir comprimidos.

A floresta, descobrimos, não é conhecida pelo seu nome oficial, mas sim como “floresta do suicídio”. Este local realmente existe no Japão, e tem uma média de 3 suicídios por semana. Pessoas do mundo inteiro viajam até lá, entram na floresta e põem fim às suas vidas. Pena que este lugar interessantíssimo, que remete a um tema por muitos ainda considerado tabu, tenha recebido um tratamento como o deste filme.

O suicídio de McConaughey é interrompido por outro andarilho, interpretado por Ken Watanabe. Mas esse, auto-flagelado, parece ter se arrependido do suicídio, e está completamente perdido dentro da floresta, desesperado para sair. Os dois decidem se unir numa “aventura” de sobrevivencia, desbravando os elementos da natureza e compartilhando suas emoções.

Durante a narrativa, todos os temores narrativos do espectador vão se confirmando. Clichê após clichê num dramalhão espiritual que normalmente receberia zero estrelas, mas consegue uma pelo calibre e o comprometimento dos atores com o material. Tanto McConaughey quanto Watanabe se entregam aos papéis e Naomi Watts, presente nos flashbacks que explicam a decisão do protagonista, está maravilhosa como sempre. Uma pena que a confiança depositada no diretor e no roteiro não foram compensadas. Nem de longe.

 

 

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