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As pressões por relacionamentos nunca estiveram tão escancaradas quanto no filme The Lobster, primeiro trabalho em inglês do diretor grego Yorgos Lanthimos. Num futuro distópico, solteiros são mandados para um hotel aonde tem 45 dias para encontrar um novo par. Caso não consigam, serão transformados no animal que escolherem. David (Colin Farrell) dá entrada no hotel no começo do filme. Recém divorciado, ele traz consigo um cachorro que na verdade era seu irmão. Um dos melhores papeis é o da Gerente do Hotel, vivida por Olivia Coleman, que recebe os hóspedes e os guia por este mês e meio de programação. Quando é perguntado em qual animal prefere se transformar caso falhar, David responde “lagosta”, por razões tanto de longevidade quanto de monogamia.

A sátira deste conceito cai perfeitamente com dois fatores: os nossos tempos em que os relacionamentos são cada vez mais “programados”, via Tinder e afins e a filmografia dos Irmãos Coen, que presidem o júri do festival de Cannes. Para as pessoas de meia idade, hoje, estar sem um par é razão para estranhar e pré-julgar. Lanthimos estabelece aqui uma sociedade em que isto é levado ao extremo. Quem não estiver vivendo um relacionamento amoroso não pode fazer parte dela. É sim transformado em animal (no filme, este procedimento acontece de verdade, não é um twist com explicação racional) e solto na natureza. Porém, num momento que traduz perfeitamente o tom de sátira, a gerente explica que um lobo e um penguin não poderiam ser soltos juntos para viverem também juntos, pois isto seria “um absurdo”.

É aqui que o filme se prova genial—quando está mergulhando, se afogando em pura sátira. O hotel é recheado de atores interessantes, como John C. Reilly e Ben Whishaw, mas seus personagens sequer tem nomes, e são assim referenciados por suas características mais marcantes. Um dos personagens principais é creditado como “Homem Manco”, por exemplo. Isso em si já é um meta-comentário sobre o nosso marketing social, e sobre como desejamos ser vistos em contraste à maneira em que somos de fato vistos socialmente.

Analisar tudo no espaço desta crítica seria impróprio, pois é preferível ser surpreendido, especialmente pela violencia brutal que explode em devidos momentos da narrativa. A busca por um novo par tem um prazo corrido, lembre-se, e à medida em que os dias vão passando, o desespero de alguns se converte complôs e outras medidas drásticas. É possível fugir do hotel, mas aí o cidadão está se sentenciando a uma vida inteira de clandestinidade. A única maneira de prolongar o prazo de 45 dias, descobre-se, é caçando e exterminando fujões. É aqui que o filme se assemelha à carreira dos Coen, na mistura perfeita entre comédia, absurdo e violência. A personagem de Angeliki Papouila, “Mulher Sem Coração” (aqui é uma metáfora, e não no sentido literal), é uma que se sentiria em pleno comforto junto com Anton Chigurh ou Charlie Meadows.

The Lobster, porém, não é uma obra-prima, pois, em seu ato final, abandona a sátira e tenta se reformar como melodrama. Um dos personagens principais chega a fugir do hotel e se juntar a um grupo ruminante de “solitários” que vive no bosque. Nesta sociedade, vemos um fascismo identico ao do hotel, só que em outra direção—qualquer relacionamento é proibido (uma das melhores piadas envolve música eletrônica). O ponto óbvio é que todo extremismo tem o mesmo resultado devastador sobre o cidadão exposto a ele. Mas The Lobster abandona a ferramenta satírica para permanecer como um barometro da hipocrisia societal do relacionamento e, bem no fim, tenta emplacar um romance, exatamente o tipo de coisa passou três quartos de sua duração combatendo. Poderia dar certo, mas não foi dessa vez. Com um começo e meio brilhantes, mas um final fraco, é o gosto do final que fica na boca.

 

 

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