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Com acúmulo de atrasos desde o início da tarde — as atrações do segmento paralelo Esses Corpos Indóceis demoraram para começar e encavalaram as sessões –, o primeiro dia de mostra competitiva do 50º Festival de Brasília impôs uma maratona exigente para o público.

Único dia de sessão dupla entre os oito de mostra competitiva, o sábado (16/9) de exibições terminou à 1h da madrugada de domingo. O que não impediu protestos calorosos de cineastas no palco do Cine Brasília e algumas respostas acaloradas do público.

 

A sessão das 19h, que só começou depois das 20h30, reuniu os curtas “O Peixe” (PE), de Jonathas de Andrade, e “Nada” (MG), de Gabriel Martins. Quando tomou o microfone para apresentar o longa “Música para Quando as Luzes se Apagam”, protagonizado por Júlia Lemmertz, Ismael Caneppele criticou recentes cancelamentos de manifestações artísticas, como a mostra de arte “Queermuseu” e o espetáculo teatral “O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu”.

Manifestações contra um Brasil intolerante
Após puxar um “Fora, Temer” com o público, o cineasta desabafou. “Vivemos em um Brasil onde se proíbe exposição de arte e uma peça porque Jesus é interpretado por uma trans. Essas coisas têm que ser colocadas em pautas, sim, queiram ou não os conservadores”, defendeu Caneppele, autor do delicado filme sobre a relação entre uma cineasta e uma adolescente por um intenso processo de autodescoberta.

 

Na sessão das 21h, que começou após as 22h30, “Peripatético” iniciou a segunda sessão com uma crônica teen sobre a violência urbana em São Paulo. A equipe do longa “Vazante”, exibido em seguida, fez fortes considerações sobre o estado de coisas da cultura e do cinema no Brasil.

Sara Silveira, produtora do longa, fez um longo apelo às autoridades. “Peço que as pessoas que hoje estão no governo do Brasil tenham consciência e consideração com o nosso setor. A Lei do Audiovisual tem que permanecer contra tudo e contra todos. Nós vamos conseguir mantê-la. O cinema brasileiro é honesto e está funcionando. Viva o cinema brasileiro!”

Daniela Thomas, cujo filme volta à época da escravidão para mostrar uma terra rachada pelo racismo e pela injustiça, definiu como é “difícil esse país”. “Que coisa estranha ser brasileiro. Cresci na ditadura. E hoje continua esse drama. Quis voltar no tempo e buscar uma imagem pra gente poder se ver lá atrás.”

“Acredito que o cinema é a melhor maneira pra entender o que a gente vive. A gente não é pré-histórico. A gente faz cinema. Cultura é o que nos define. Obscurantismo está voltando com toda força e nós temos que ser resistentes e batalhar pelo que nos define como cidadãos.”

Quando começou a exibição de “Vazante”, porém, chegou a vez de o público se manifestar. Como aconteceu na sexta (15/9) com o longa de abertura “Não Devore Meu Coração”, a logo da Globo Filmes foi alvo de vaias assim que surgiu na tela.

 

 

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