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Mia Madre poderia servir como epitáfio para a carreira cinematográfica de Nanni Moretti, o diretor italiano que faturou a Palma de Ouro em 2001, pois nele estão misturados os principais assuntos que o diretor costuma abordar em seus filmes. Neste, Margherita Buy (que atuou em seus últimos 2 filmes) interpreta Margherita, uma diretora de cinema que, durante as filmagens de seu novo longa tem de administrar a mãe, à beira da morte, o irmão, tranquilo e preparado para esta perda, e o astro hollywoodiano que contratou para protagonizar seu filme.

Com a situação materna, Moretti exorcisa um demônio recente: a perda de sua mãe enquanto ele filmava Habemus Papa. Fugindo do estereótipo das mamãezonas italianas, aqui a figura materna é uma bem sucedida academica que definha sem muitas complicações ou melodrama.

O irmão, vivido pelo próprio Moretti, aparece para ajudar, mais apenas aumenta o desconforto de Margherita, visto que a estabilidade emocional que o irmão demonstra, em vez de facilitar o stress da irmã, apenas torna explícito o seu despreparo e sua dificuldade em lidar com a situação da mãe. Moretti sempre se coloca em seus filmes, e aqui está presente duas vezes, interpretando o irmão e tendo a protagonista, diretora de cinema, como seu alter-ego. Que ele resolve, dessa maneira, se contrapor a si mesmo abre o diálogo para as dúvidas e conflitos que ele mesmo teve em sua carreira.

Também temos o filme que Margherita dirige, uma parábola sobre trabalhadores em uma fábrica que se unem e entram em greve, um conflito político muito emblemático da itália no período em que Moretti ainda era jovem.

A maior surpresa aqui é a performance de Turturro, solta e irreverente. Apesar de uma carreira cheia de papeis cômicos, junto dos Irmãos Coen, a equipe de Adam Sandler e até Michael Bay, Turturro nunca parece estar se divertindo. Às vezes pelo fato de sua comédia vir de personagens neuróticos ou ameaçadores, em outras porque está num set com Adam Sandler ou Michael Bay. Mas aqui interpreta alguém mimado e imaturo, mas extremamente empolgado com o processo de filmagem. Suas cenas são as melhores, especialmente uma envolvendo um camera-car, uma sutil metáfora ao perigo de fazer um filme.

 

 

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