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A morte de um filho é o pior acontecimento na vida de um casa. Mas nesta versão de Macbeth, do diretor australiano Justin Kurzel, é apenas o começo. Escrito por William Shakespeare no início do século 17, o texto conta a história de um general escocês que, encorajado por uma profecia sobrenatural e pela ambição de sua mulher, assassina o Rei da Escócia para ficar no seu lugar. O enredo é tão macabro que até hoje círculos teatrais se referem ao texto como “a peça escocesa”, pois dizer seu nome seria chamar para si mesmo o azar.

Kurzel parece não ter se interessado em fazer um filme básico, um Macbeth para leigos. Entendendo que contaria uma história já interpretada centenas senão milhares de vezes, preferiu criar algo diferente, aproveitando até os esforços de famosos diretores do passado, especialmente Orson Welles, que em sua versão cercou o general/rei pelo expressionismo alemão, e Roman Polanski que, três anos após o assassinato de sua esposa pelos seguidores de Charles Manson, fez um filme marcado pela violência explícita. Akira Kurosawa fez a melhor versão até hoje, Trono Manchado de Sangue, transportando a tragédia para o Japão feudal, e finalizando com uma cena de combate inesquecível.

Kurzel corta 30% do texto original, adiciona a ambientação sombria de Welles, a violência de Polanski, conclui tudo com a ferocidade dos combates de Kurosawa e ainda salpica em tudo a camada arenosa e texturizada que hoje em dia dá credibilidade aos blockbusters sombrios. Diferentemente dos filmes em que um homem se veste de morcego, aqui o impacto visceral desta técnica é mais efetivo.

O grande diferencial, o que marcará esta obra é que Kurzel decidiu despir Macbeth de sua teatralidade e transformá-lo em cinema. Os grandes discursos não são mais bradados aos ventos, para que a última fileira também os ouça, mas sim sussurados, em closes que aceitam todas as nuances que os atores escolhem para os seus personagens. Paddy Considine e Sean Harris tem papéis coadjuvantes, como Banquo e Macduff, mas roubam suas cenas, assim como David Thewlis que vive o rei destinado a morrer nas mãos de Macbeth. Finalmente chegamos no casal principar, Lord e Lady Macbeth, que tramam e conseguem chegar ao poder, vividos por Michael Fassbender e Marion Cotillard, atores vivendo o auge de suas carreiras.

O corpo de Fassbender acompanha o discurso de seu personagem que, consumido pela culpa de ter assassinado o rei, começa a perder a sanidade, e ele se converte, de um general vitorioso a uma pústula agonizante de sofrimento. Cotillard, com seu sotaque francês, causa estranheza, mas antagoniza ainda mais Lady Macbeth, personagem que leituras mais simplicistas da peça “culpam” pelo desfortúnio de Macbeth.

Shakespeareanos fanáticos deverão reclamar muito dessa versão. Além da condensação do texto, podem achar que a cena inicial, aquela do enterro do filho de Macbeth, serviria como uma explicação derivada da psicologia pop para contextualizar o começo deste declínio (a peça original faz apenas uma vaga e incerta alusão a um filho do casal). As bruxas, responsáveis pela profecia de que Macbeth virará rei, também não tem tanto destaque. Mas seria um equívoco descartar o final do filme, uma interpretação incrível do verso que prenuncia a derrota final de Macbeth quando “a floresta se mover”. Nunca Shakespeare foi tão cinematográfico.

 

 

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