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Contos de fadas geralmente são direcionados às crianças, mas em Il Racconto dei Racconti o diretor italiano Matteo Garrone tenta criar um para adultos. Relatando três contos neapolitanos do século 17, o filme alterna entre o belo e o grotesco, mas sem a capacidade de dar a eles desfechos interessantes.

No primeiro conto, Salma Hayek é uma rainha que não consegue engravidar de seu marido. Confiando no bruxo de um circo que passa pela sua cidade, a rainha pede a seu marido que mate um perigoso monstro marítimo e traga-lhe seu coração. Assistir a cena em que Hayek devora o coração com as mãos é receber uma dica visual do que está por vir. Esta história, assim como as outras, não terá um final feliz. A rainha engravida, mas a cozinheira que preparou o coração do monstro também, fato que trará ao mundo duas crianças excepcionalmente conectadas.

No segundo, Vincent Cassel é um rei boêmio que, na primeira apresentação está acordando num pós-orgia fellinesco. Uma noite, ouve uma voz cantando e decide descer de seu castelo à procura da cantora. Chega a uma residencia humilde e não aguenta: bate na porta demandando conhecer a moradora. Esta, por ser uma senhora idosa e judiada pela vida, recusa o encontro. O rei promete casar com a cantora, e esta peça que espere uma semana e volte com um anel para assim se apresentar. Sabendo que o rei a rejeitará assim que conhecê-la, a senhora decide aproveitar bruxaria para tornar-se jovem novamente. O problema é que isso poderá causar mal a sua irmã, com quem ela vive.

No terceiro, e mais divertido, outro rei torna-se obcecado por um pulga e começa a cuidar dela, alimentando-a com o próprio sangue. A pulga cresce até o tamanho de um veículo e o rei a mantém escondida, até de sua própria filha, por quem tem uma preferencia menor do que a que esbanja no inseto. A filha, inteligente e competente, mesmo com a indiferença do pai é subsequentemente usada em uma competição para decidir quem casará com ela. Colocando a pele descascada da super-pulga na parede, o rei desafia o reino inteiro. Quem acertar o tipo de animal levará sua filha. O desfecho, nem preciso mencionar, é memorável.

O problema disto tudo é que o roteiro não transcende a promessa destas histórias. A riqueza do cenário, da decoração, da fotografia e do figurino não é acompanhada pelo emocional. A grande maioria dos personagens é desprezível, não só as figuras da realeza, mas em várias instâncias os plebeus também. Por isso fica difícil investir qualquer sentimento além de curiosidade nestes contos. Os desfechos não vão tão fundo quanto o necessário para surpreender, parecendo até menos originais que os episódios de Além da Imaginação, série fantástica com mais de 50 anos de idade. Quem assiste Il Racconto dei Racconti ficará impressionado com a beleza visual, mas nem tanto com a história. Além da valiosa lição de que não se deve confiar em feitiçaria.

 

 

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