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Curiosos e tortuosos são os caminhos tomados pela comédia nacional para convencer o público a ir ao cinema. Alguém ainda se lembra de “Loucas para Casar”, em que o final-surpresa revela um delírio à la “Clube da Luta” sofrido pela personagem principal?

Pois bem. Na superfície, “Mulheres no Poder”, de Gustavo Acioli, não parece ser mais do mesmo. No filme, a Brasília de engravatados e caras-de-crachá sai de cena. Elas, as mulheres, dominam os bastidores da política nacional. E os homens que por ali circulam, coitados, surgem como meros figurantes nesse jogo de cena.

As maquinações e falcatruas, porém, persistem. A licitação do projeto Brasil Brasileiro coloca duas figuras venenosas em rota de colisão. Uma é a senadora Maria Pilar (Dira Paes), acostumada a jogos de interesse com a oposição e práticas como nepotismo, a outra, a ministra Ivone Feitosa (Stella Miranda), que também ambiciona cargos mais altos.

Histrionismo e metáforas
Essa aparente lucidez cômica é logo escanteada por deslizes recorrentes das comédias nacionais: as atuações histriônicas à beça e o roteiro metafórico, em que cada diálogo toma atalhos por meio de lugares-comuns e chavões, de “cachorro de padaria” à ambiguidade entre “você tem o milho, eles têm o fubá”.

Os tais papéis invertidos servem como mero adereço. No lugar do famoso dinheiro na cueca, há, aqui, uma cena em que as duas secretárias executivas de Maria e Ivone escondem, aos gritos, maços de notas na calcinha. Minutos antes, uma das funcionárias praticamente tem um orgasmo ao inserir verdinhas em seu decote.

Essa estrutura caricatural, sem qualquer fundo dramatúrgico, invalida até mesmo o humor crasso defendido pelo filme em seu terço final, sempre com o objetivo de mostrar que a política é irmã da baixaria. Por fim, o que se tem é um “House of Cards” adaptado para uma telenovela das sete.

 

 

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