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Cinema

"Fraturas sociais estão presentes até hoje", diz diretor de "Joaquim"

Em entrevista, diretor pernambucano Marcelo Gomes fala sobre como foi humanizar o mito de Tiradentes no longa "Joaquim"

17/04/2017 05:30
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REC Produtores/Ukbar Filmes/Divulgação
“Fraturas sociais estão presentes até hoje”, diz diretor de “Joaquim”

“Joaquim” estreia no circuito brasileiro com um timing ideal. Além de se posicionar pertinho do feriado de Tiradentes (21 de abril), o novo longa do pernambucano Marcelo Gomes explora o Brasil Colônia para retratar Joaquim José da Silva Xavier como um homem comum. “Me interessou saber como um soldado da coroa se transformou em rebelde”, diz o cineasta.

Não por acaso, o filme é intitulado “Joaquim”, como a história atemporal de qualquer brasileiro. A primeira cena já desenha o que se verá a seguir. Com a cabeça de Tiradentes num toco de madeira, uma narração em off do próprio personagem repassa brevemente a revolta e a morte do revolucionário.

“Apenas eu perdi a cabeça. Talvez por ser o mais pobre, o mais exaltado”, revela Joaquim, vivido no filme pelo paulista Júlio Machado. A narrativa dá ênfase à metamorfose do personagem em um país mergulhado em contradições sociais. Como Joaquim, de alferes de Portugal, tornou-se um dos líderes da Inconfidência Mineira?

As origens de Tiradentes e o nascimento do Brasil
A inexistência de documentos históricos sobre essa transformação levou Gomes a misturar realidade e ficção. “Consultei materiais sobre o dia a dia do Brasil colonial. Como as pessoas conversavam, se relacionavam. A partir das leituras, imaginei como seria a mudança de paradigma de Joaquim. É mais uma crônica do que uma novela histórica”, aponta o recifense.

Gomes, que venceu o Festival de Brasília 2012 com “Era uma Vez Eu, Verônica”, aproveitou as lacunas factuais para estudar a pesada herança do colonialismo. “As fraturas sociais desse Brasil Colônia estão aqui até hoje. A corrupção, o nepotismo, o racismo”, diz. “Hoje falamos de crise política, que também vem com uma crise existencial. Nada melhor que mergulhar no passado para tentarmos entender o presente”.

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Mujica/Divulgação

No filme, Joaquim adquire consciência social quando se permite reconhecer a diversidade ao seu redor. Apaixona-se pela escrava Preta (vivida pela portuguesa Isabél Zuaa) e tem o mestiço Januário (Rômulo Braga) como melhor amigo. Ainda assim, é um homem contraditório, cuja principal frustração é não obter o cargo de tenente pelo exército português.

Para o ator Julio Machado, as ambiguidades de Joaquim metaforizam a maneira como o país se enxerga no espelho. “O Brasil sempre tenta se encaixar numa ideia de identidade. Às vezes na Europa, nos Estados Unidos. Sempre de costas para a América Latina, tão colada na gente”, reflete o intérprete.