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Se tem um gênero no qual o cinema nacional parece ter se especializado – para além da comédia, claro –, é o documentário musical. A safra recente trouxe retratos de Cássia Eller e Dominguinhos, para ficar em dois exemplos. Circula pela cidade um filme sobre um personagem não muito conhecido nacionalmente, mas icônico e influente na cultura (e contracultura) brasiliense.

“Ziriguidum Brasília — A Arte e o Sonho de Renato Matos” é o perfil de um artista que abraçou uma maneira radical de se expressar, multiplicando-se na pintura, na música e na literatura. Dirigido por André Luiz Oliveira , o longa foi rodado com equipe pequena e exibido pela primeira vez no Festival de Brasília de 2014. André Luiz explica:

“Renato busca a excelência na sua excentricidade. Não fez concessões para alcançar um patamar de visibilidade. Ele exerce a criatividade com muito radicalismo, de uma maneira questionadora. Achei que isso merecia um registro”

Soteropolitano tal qual Matos, o cineasta veio para Brasília no começo dos anos 90. A identificação imediata se deu quando o realizador se preparava para rodar “Louco por Cinema”, vencedor do Festival de Brasília em 1994. O jeito extravagante do músico encantou Oliveira nas audições para o longa. No filme, ele interpreta um traficante de Planaltina com mania de perseguição.

Assista ao trailer de “Ziriguindum Brasília”:

Irreverente e radical
Renato Matos até hoje é tido como um dos precursores do reggae na capital. Quando aqui chegou, no fim da década de 1960, continuou pintando, mas também enveredou para o teatro. Uma de suas principais criações é a instalação sonora “Ziriguidum do Além”, projeto da década de 1990 que ganhou formato em disco em 2004.

Essa busca por uma estética própria parte de um desejo bastante peculiar. Matos ouve e dá sentido a melodias extraídas de encontros incomuns: de pedras se chocando ou de metal em contato com isopor.

Artista fora da curva, Matos ainda integra a banda Sacassaia ao lado de Tomás Seferin e Gabriel Reis e é autor de “Palindrimas — Palíndromos Rimados e Musicais”, livro que reúne palíndromos escritos em forma de poesia.

A imagem desse baiano inquieto e criativo ao extremo é estimulante para seus pares da cidade. “Como diz Hugo Rodas (dramaturgo com quem Matos trabalhou nos anos 70): ‘Não gosto de ver Renato. Fico com inveja. Queria ter a liberdade dele’”, brinca Oliveira.

 

 

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