*
 

Isabelle Huppert é o que podemos chamar de força da natureza. Indicada ao Oscar de melhor atriz por sua inquietante atuação em “Elle”, ela emerge do glamour do tapete vermelho numa trama curiosa sobre o fracasso. Dirigido pelo belga Bavo Defune, “Souvenir” fala sobre os perigos de se reviver o mito da Fênix numa sociedade, digamos, normal.

Para quem está acostumado em ver a diva francesa em papéis chiques, vai se assustar com a crueza da construção da personagem Liliane Cheverny. Ela é operária de uma fábrica de tortas solitária que esconde um segredo do passado. Lá nos distantes anos 1970 seu nome era Laura, cantora talentosa que quase venceu um desses concursos musicais de TV, mas perdeu a chance de brilhar na música por conta de um produtor namorado cafajeste.

Um dia, a fábrica em que trabalha contrata, temporariamente, um jovem boxeador amador (Kévin Azaïs) que reconhece seu rosto dos discos antigos do pai e a voz por traz do pegajoso sucesso “Souvenir”. “Ela é uma cantora do tipo ABBA, mas menos famosa”, comenta ele com um amigo, esbanjando a sutileza de um elefante numa loja de porcelana.

Vazio entre a trama e o espectador

A princípio Liliane nega que um dia foi Laura, não quer ver sua vida na boca de estranhos, recordar que já foi uma grande promessa da música francesa, mas logo se rende aos buchichos alheios, as traiçoeiras reviravoltas do passado. Sobretudo porque vislumbra nesse jovem pugilista, apesar do gritante contraste entre eles, chance de voltar aos palcos numa espécie de “comeback” redentor. Não o usando, mas se deleitando desse falso momento mágico.

Sim, porque a relação amorosa entre os dois vem embrulhada de certo preconceito por parte dos pais do rapaz e descrença das pessoas que os cercam. Nem eles mesmos sabem se esse enlace vai dá pé, mas ambos buscam novas perspectivas de um futuro incerto se apoiando um no outro. Quando o sucesso volta a bater à porta de Liliane/Laura, as coisas se complicam. “Nunca vou esquecer você”, desespera esse dublê de boxeador.

Incansável, Isabelle Huppert faz uma média de três filmes por ano. Na maioria das vezes acerta, às vezes não. “Souvenir” não é nem uma coisa ou outra. Embora a atriz brilhe em atuação contida e o par que forma em cena com Kévin Azaïs convence, dentro de sua sutil bizarrice, o filme não decola, passando uma leve sensação de que está faltando alguma coisa. Essa lacuna que perpassa entre a trama e o espectador não deixa a fita acontecer.

Veja os horários do filme

Avaliação: Regular

 

 

COMENTE

isabelle huppertSouvenir
comunicar erro à redação