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Um dos infortúnios de se assistir a um filme na rede Cinemark, além dos preços salgados de tudo, evidentemente, é a esmagadora sequência de trailers e propagandas que o espectador é obrigado a “suportar” antes que a fita que ele escolheu para assistir comece de fato. Em média, são quinze massacrantes e entediantes minutos que parece não terminar nunca. Como diria o Marlon Brando no clássico “Apocalipse Now”: “Um horror, um horror!”.

Um horror também, mas com toques de grotesco humor negro é o tema da comédia nacional “O Roubo da Taça”, que mistura realidade e ficção para contar a história verídica do furto, em 1983, da Jules Rimet, mítico troféu da Copa do Mundo entregue ao Brasil após a conquista do tricampeonato em 1970. Na época, dois ladrões molambentos invadiram a sede da CBF, na Rua da Alfândega, 70, centro do Rio de Janeiro, arrombaram um armário blindado onde estava o objeto e sumiram zombando medíocre segurança do lugar.

“Mas quem foi o louco que colocou a réplica no cofre e a original no armário?”, pergunta indignado um poderoso chefão da CBF vivido por Stepan Nercessian. “E eu que estava pensando ir para o Senado. Agora não consigo me eleger nem para Vereador”, ironiza o personagem, fazendo alusão à carreira política do ator.

Na trama, o executor do crime rocambolesco foi o corretor de seguros Peralta (Paulo Tiefenthaler), que, enrolado até o pescoço com dívidas de jogo, não pensa duas vezes em desrespeitar os amantes do futebol com a ajuda do comparsa Borracha (Danilo Grangheia). Nonsense, ele toma Toddy na taça e negocia o preço da relíquia com um comerciante argentino, inimigo histórico do escrete canarinho em campo.

Prêmios em Gramado e atuações competentes
Como era de se esperar, o assunto desastrado ganha repercussão nacional, com exposição maçante na mídia e interferência até do próprio Exército. Não demora muito para a vistosa esposa de Peralta, a elegante mulata Dolores (Taís Araújo), perceber a grande confusão em que todos se meteram e virar pivô de desfecho surpreendente deste caso.

Vencedor dos prêmios de Fotografia, Direção de Arte, Roteiro e Ator (Paulo Tiefenthaler, conhecido do programa “Larica Total” do Canal Brasil) na edição deste ano do Festival de Gramado, “O Roubo da Taça” faz uma apropriação irreverente de fatos reais para desenvolver uma trama cômica nascida de uma tragédia nacional. Mesmo que quisesse optar por um viés dramático, o diretor Caico Cortiz não iria conseguir fugir do humor dado à natureza patusca do fato. Dosou com propriedade os dois gêneros buscando como referências as hilárias comédias absurdas italianas dos anos 70.

Conduzido por boas atuações do elenco central – Tiefenthaler está perfeito como um autêntico malandro carioca – e coadjuvantes competentes, entre eles Milhem Cortaz (um investigador brutal) e Fábio Marcoff (comerciante argentino), além de Mr. Catra, em rápida, mas precisa aparição, o filme sintetiza com certa elegância inteligente um estigma nacional que se confunde com nossa identidade, ou seja, o famigerado e infame jeitinho brasileiro de se dar bem. Às vezes, como nesse caso, bem, mas bem mal.

Avaliação: Bom

Veja horários e salas de “O Roubo da Taça”.

 

 

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