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“Helmut Berger, Ator”, atração no Festival do Rio, é bem mais incomum e íntimo do que seu título autoexplicativo deixa transparecer. Aos 72 anos, o austríaco hoje vive à sombra do que foi nos anos 1970: um das personas-fetiche do diretor italiano Luchino Visconti em longas como “Os Deuses Malditos” (1969), “Ludwig – A Paixão de um Rei” (1973) e “Violência e Paixão” (1974). Eis a chave do filme. Berger está decadente, paranoico e arredio a dar entrevistas para o documentário.

Entre áudios de telefonemas e encontros ao vivo, o cineasta Andreas Horvath tenta realizar um filme que parece impossível. A casa de Berger em Salzburgo, na Áustria, virou uma espécie de memorial precoce. Fotografias das obras de Visconti preenchem as paredes com glamour e sensualidade. O astro mal vê a luz do sol, murmura memórias e resmungos e vê televisão.

A presença da câmera e do documentarista parecem de fato incomodá-lo (e provocá-lo). “Você faz documentário, você tem que ser chato”, diz ele, abrasivo. Horvath continua filmando e Berger mantém uma relação de morde-e-assopra com o projeto. Acusa o cineasta de aproveitador, mas também se exibe para as lentes. Ora agressivo, ora amigável.

Divulgação

O ator austríaco Helmut Berger: intimidade revelada e encenada

 

Personagem x diretor: repulsa e atração
“Helmut Berger, Ator” acaba funcionando como um duelo pelo controle do próprio filme. Horvath procura a imagem de uma figura caída, de um fantasma doméstico. Berger é tão espontâneo e autodepreciativo quanto performático. Ainda que seu entorno seja bem menos estimulante do que seus anos de extravagância nos anos 1970.

Ele conta que uma vez intimou Bertolucci sobre os efeitos que “Último Tango em Paris” (1972) tiveram sobre a atriz Maria Schneider — a francesa, então com 19 anos, revelou décadas mais tarde ter sido estuprada naquela infame “cena da manteiga” com Marlon Brando. Ele, Bertolucci, disse a Berger que não se importava com isso.

“É uma indústria diabólica”, Berger classifica. A relação do ator com Horvath se torna tão ambígua que o filme parece prestes a implodir. O austríaco trata o cineasta como seu secretário. “Mude de canal” é um dos pedidos mais frequentes. Em momentos de ternura e desejo, confessa nutrir atração pelo documentarista — um ardor que não deixa de ser também pela própria condição de objeto filmado.

“Helmut Berger, Ator” atinge notas improváveis de intimidade (revelada e encenada) a partir do relacionamento intempestivo entre personagem e diretor. Dentro de uma certa tendência de documentários sobre personas do cinema, é um filme que pode fazer ótima companhia a “Eu Ainda Estou Aqui” (2010), sobre a falsa aposentadoria de Joaquin Phoenix, e o recente “A Destruição de Bernardet”, perfil sobre o ator e crítico exibido no Festival de Brasília 2016.

Avaliação: Bom

“Helmut Berger, Ator” ainda não tem data de estreia no Brasil

 

 

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