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Em “Doutor Estranho”, heróis e vilões conseguem dobrar metrópoles inteiras como origamis, congelar o tempo para ganhar vantagem nas batalhas e até se comunicar com dimensões obscuras. Na chamada fase 3 de seu universo cinematográfico, a Marvel/Disney consegue pela primeira vez entregar ao público (e não apenas aos fãs dos quadrinhos) uma genuína história de fantasia.

Benedict Cumberbatch, numa composição muito parecida com seu “Sherlock”, vive o tal Doutor Estranho. Ele é um neurologista arrogante e manipulador que adora arrotar seus talentos. Após sofrer um acidente, vê suas mãos perderem a precisão dos movimentos. Aposentadoria forçada num piscar de olhos.

Atenção para possíveis spoilers!

Stephen Strange, o doutor, decide recorrer às artes místicas em busca da cura. A contragosto, claro, porque ele é cético à beça. No Nepal, a líder Anciã (Tilda Swinton) e seu subordinado Mordo (Chiwetel Ejiofor) aos poucos abrem a mente do médico para a existência de forças que transcendem o mundo material e de um multiverso infinito.

O novo herói encontra pelo caminho Kaecilius (Mads Mikkelsen), um mago renegado que pretende reunir poderes da Dimensão Negra e convocar o ser mágico Dormammu. O objetivo do rival é quebrar as leis da natureza e obter a vida eterna.

Magia e ironia
A história descrita acima parece sisuda demais para os padrões dos filmes da Marvel. Mas o estúdio consegue encontrar o tom certo entre a fantasia, a formação do super-herói e as sacadinhas irônicas marcantes de outros produtos da saga. No melhor momento cômico, o recém-chegado Strange recebe de Mordo um papelzinho escrito “Shamballa”. “É a senha do wi-fi. Não somos tão ancestrais assim”, explica.

Lá pelas tantas, a comédia chega a extrapolar nessa constante tentativa de suavizar as tonalidades quase religiosas da trama. De qualquer maneira, a Marvel contratou o diretor certo para adaptar o Doutor Estranho: Scott Derrickson, um cineasta que remexeu o oculto em “O Exorcismo de Emily Rose” (2005) e “A Entidade” (2012).

Mais associado aos filmes de terror, Derrickson consegue organizar e articular as diferentes escalas da aventura: dos cenários urbanos se desconstruindo à la “A Origem” (2010) ao relacionamento entre o egoísta Stephen e a prestativa colega de profissão Christine (Rachel McAdams).

Nesse jogo de distorções visuais e duelos místicos, Derrickson alcança seus melhores momentos quando brinca com a manipulação de espaço e tempo. O duelo final entre Stephen e Dormammu, por exemplo, é uma apropriação descarada, mas esperta de “No Limite do Amanhã” (2014). Para a sorte do público, “Doutor Estranho” prefere a diversão pomposa à metafísica de boteco.

Avaliação: Bom

Veja horários e salas de “Doutor Estranho”.

 

 

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