Cannes: “Hell or High Water”, de David Mackenzie

Um noir sulista, um bangue-bangue western, uma reflexão sobre crise economica, uma parábola fraterna, um quebra-cabeça- tudo no mesmo filme

atualizado

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Festival de Cannes/Divulgação
Hell or High Water, Cannes
1 de 1 Hell or High Water, Cannes - Foto: Festival de Cannes/Divulgação

Em inglês, a expressão “come hell or high water” descreve algo que vai acontecer, “não importa as consequencias”–um atitude de tudo ou nada, digamos assim. E o novo filme do diretor inglês David Mackenzie consegue tudo. Distribuídos em menos de duas horas estão um noir sulista, um bangue-bangue do velho oeste, uma reflexão sobre a economia americana, uma parábola fraterna, um quebra-cabeça vingativo e um thriller de crime, tudo na mesma história.

O filme começa no estacionamento de um banco local, quando um carro dá uma volta no prédio e estaciona bem em frente à porta. Dois homens mascarados saem do carro, armas em punho e entram no banco, anunciando o assalto. Eles são Toby (Chris Pine) e Tanner (Ben Foster), irmãos no meio de um intricado plano criminoso. No começo são bem estereotipados. Toby é um tanto tímido e inseguro com as atividades da dupla. É o “cérebro” da equipe, aquele que planeja. Tanner é o “cachorro louco”, viciado em adrenalina, é um barril de pólvora pronto para explodir.

Como o filme se passa no sul do Texas, estado americano mais relacionado à tradição do western, é claro que logo aparece um xerife para perseguí-los. No caso, são dois: Marcus Hamilton (Jeff Bridges) e Alberto Parker (Gil Cunningham). O primeiro, prestes a se aposentar (óbvio) e o segundo, de ascendência indígena. Um dos pontos altos do filme é a convivência entre os membros de cada dupla. Com objetivos e moralidades opostas, uma dupla correndo da outra, os laços de fraternidade que eles demonstram entre si indicam que uma necessidade por afeto, mesmo no mundo de homens durões, é o que os mantêm vivos e sãos.

O aspecto de quebra-cabeça tem a ver mais com a dupla de foras-da-lei. Toby e Tannen tem uma razão muito específica para assaltarem estes bancos, e o roteiro deixa claro cada parte do plano. Quanto menos se explicar num artigo, melhor, pois a estrutura do roteiro é perfeita, alimentando o espectador pedacinho por pedacinho. Neste aspecto, “Hell or High Water” fica como um excelente filme de “processo”, mostrando desde o assalto, até a lavagem do dinheiro.

Toby e Tannen vem de uma família pobre, donos de um rancho improdutivo desde sempre. Enquanto Tannen passou longa temporada preso por assalto à mão armada, Toby se divorciou, perdeu a guarda dos dois filhos, e ainda cuidou da mãe enquanto esta perdia uma luta agonizante contra o cancer. A família se encontra em sua situação mais precária justamente na ressaca da recessão de 2008. Enquanto os bancos receberam resgate financeiro do governo, os cidadãos perderam o que tinham. Percorrendo este cenário de desolação, as duas duplas centrais tem encontros providenciais com coadjuvantes importantes.

Não se trata aqui de um filme diverso. “Hell or High Water” é sobre quatro homens, e apenas um deles é uma minoria (no caso, indígena, que tem seu próprio histórico no cinema de western). Mas todos estão fazendo seu melhor trabalho. Chris Pine, longe da conveniência de ser Capitão Kirk, se destaca em seu melhor papel até hoje. Jeff Bridges, no começo, parece estar completamente acomodado numa performance típica de sua carreira, mas o rumo do filme o leva a nuances e extremos inesperados. Ben Foster, acostumado a interpretar psicopatas, tem a trajetória menos inovadora do quarteto, assim como Gil Cunningham. Nas beiradas, rostos pouco familiares, mas ainda assim, perfeitos.

Um dos melhores filmes do festival.

Avaliação: Excelente (5 estrelas)

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