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A primeira experiência cinematográfica do carioca Júlio Bressane se deu entre os 11 ou 12 anos, quando, numa viagem aos Estados Unidos, ganhou uma filmadora de três lentes e um projetor 16mm. Um brinquedo diferente do qual não conseguia controlar o resultado, confessaria o cineasta anos mais tarde. Em 2016, ele retorna ao Festival de Brasília nesta segunda (26/9), às 19h, para apresentar “Beduíno”, seu mais recente longa-metragem, fora de competição no Cine Brasília.

Em 1964, Bressane conheceu Glauber Rocha, que o convidou para ser seu assistente de direção na adaptação da peça “Senhora dos Afogados”, de Nelson Rodrigues. O projeto não vingou e Bressane, então com 19 anos, foi ser assistente de Walter Lima Jr. em “Menino do Engenho”, filme de 1965 produzido pelo cineasta baiano.

A estreia como diretor de longas-metragens aconteceria em 1967 com o drama “Cara a Cara”, confessadamente influenciado por “Terra em Transe”, de Glauber. De cara, o filme foi selecionado para o Festival de Brasília daquele ano, época em que Bressane conheceu o cineasta Rogério Sganzerla, outro nome de peso do cinema de resistência no Brasil.

A admiração recíproca resultou na criação da Bel Air, produtora que, norteada por projetos experimentais de baixo orçamento, viabilizou seis filmes rodados fulminantemente em dois meses. São dessa fase dois clássicos de sua filmografia: “O Anjo Nasceu” e “Matou a Família e Foi ao Cinema”, ambos de 1969.

Divulgação

Cena de Alessandra Negrini em “Beduíno”: exibição segunda (26/9), às 19h

 

A polêmica em torno dos filmes, brutalmente vitimados pela censura, levou Bressane a se exilar na Europa no início dos anos 1970, sob acusação de ter seus projetos financiados pelo guerrilheiro Carlos Marighella. A paranoia era do general Silvio Frota, que não prendeu o cineasta porque não quis.

É mais ou menos dessa época que surgiu o rótulo cinema marginal, menos relacionado com o ato criminoso que o termo associa e mais com a transgressão estética promovida a partir das invenções revolucionárias de paródias do underground (redescoberta da chanchada, carnavalização dos problemas sociais do país).

“Essa questão de ‘desde cinema marginal’ não existe. Foi um crime que se cometeu… Com esse rótulo de marginal, se excluiu um grupo de cineastas de uma maneira de se fazer cinema, dos meios de financiamento, dos meios públicos”, reclamou Bressane em entrevista ao Metrópoles.

Ao voltar ao Brasil, o diretor dá um novo rumo à sua jornada cinematográfica, realizando filmes que dialogam com a chanchada e personagens emblemáticos da cultura brasileira que transitaram pela música e literatura.

Nasciam obras-primas do cinema de invenção como “Tabu” (1982) — que narra o alegórico encontro entre o compositor Lamartine Babo e o escritor modernista Oswald de Andrade –, “Brás Cubas” (1985) – reinvenção experimental do clássico de Machado de Assis – e “O Mandarim” (1995), cinebiografia poética sobre o compositor Mário Reis, com a estreia do ator Fernando Eiras em seus filmes.

Um artista à margem do mercado, marginalizado em função do estilo estético e imagético que adotou por opção, Júlio Bressane é pivô de discórdia e paixão entre público e crítica. Contudo, seu cinema de experimentação narrativa quase sempre é um farol de referência para cineastas e estudiosos do segmento.

Questionado pelo Metrópoles se há algum incômodo em ser um artista de vanguarda no Brasil, o diretor desconversou ironizando. “Não sei, não saberia responder, tem perguntas que não sei responder e essa é uma delas”.

Relembre os melhores filmes de Júlio Bressane:

Reprodução/Canal Brasil

“O Anjo Nasceu” (1969)
Amparado por radicalismo cerebral, o cineasta abandona o espectador na poltrona de cinema ao contar a história de dois personagens marginais (Hugo Carvana e Milton Gonçalves) prestes a cometer um crime.

Vaiado no mítico cinema Paissandu, no bairro do Flamengo (Rio de Janeiro), traz um desfecho emblemático em sua construção narrativa de invenção, com uma câmera largada no meio de uma estrada ao som de um baião de Caymmi que denuncia a origem e o destino desses dois desajustados em fuga.

Reprodução/Canal Brasil

“Matou a Família e Foi ao Cinema” (1969)
Bressane desconstrói o mito da moral cotidiana da família e do afeto do lar com uma trama em que o ridículo e o dramático andam juntos, a partir do estranho relacionamento entre duas amigas vividas por Renata Sorrah e Márcia Rodrigues. Um marco do cinema underground, o filme foi refilmado em 1991 por Neville de Almeida.

Reprodução/Mubi

“Tabu” (1982)
Tendo como princípios narrativos a imagem, a fala e a música, o cineasta cria aqui o encontro da poesia e da boemia ao colocar em contato hipotético o compositor Lamartine Babo (Caetano Veloso) e o escritor modernista Oswaldo de Andrade (Colé Santana). O encontro seria promovido pelo cronista João do Rio (José Lewgoy). Ah, sim, o título é uma referência ao clássico homônimo de 1931 do cineasta F.W. Murnau filmado no Pacífico Sul.

Divulgação

“O Mandarim” (1995)
Chico Buarque é Noel Rosa; Gilberto Gil, o instrumentista e compositor Sinhô; Gal Costa, Carmem Miranda, e Raphael Rabello, o maestro Heitor Villa-Lobos. Enfim, todos aqui numa sofisticada sobreposição de signos populares de épocas diferentes da música brasileira feita pelo cineasta para contar a trajetória de Mário Reis, popular cantor da era de rádio conhecido como o “Bacharel do Samba”.

A escolha de Fernando Eiras, em seu primeiro filme com o mestre do cinema autoral, não foi gratuita já que, por ser filho do radialista Haroldo Eiras, o ator tinha intimidade com a obra da turma da velha guarda do samba.

Divulgação

“Filme de Amor” (2003)
Erudito e refinado, Bressane faz aqui sua releitura do mito grego das três graças a partir da construção de uma fábula popular suburbana, regada a muito erotismo, sensualidade e beleza plástica. Com fotografia de Walter Carvalho e trilha sonora de Guilherme Vaz, o filme talvez seja um de seus projetos mais bem-sucedidos no mercado.

 

 

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