*
 

Ator desde os 13 anos, Alexandre Adas iniciou sua trajetória no teatro, passou pelo circo e chegou até a dança. Nos palcos, à noite, ele é Monroe La Von Teese, personagem burlesco que seduz e atiça a curiosidade de homens e mulheres. De dia, ele veste a farda e atua como Policial Militar no Distrito Federal.

PM há 10 anos, Alexandre conheceu a dança burlesca em 2011. A arte mistura sensualidade e comédia, envolvendo shows de striptease e performances teatrais.

É um enfrentamento dos estigmas. Temos essa questão de, por culpa, pecado e proibição no corpo, lidarmos com a sexualidade como um tabu. A dança vem para tornar isso divertido e leve. É uma dualidade do ser humano"
Alexandre Adas

O começo na arte burlesca veio graças a um amigo. Giovane Aguiar, fundador do centro cultural Usina, convidou Alexandre para fazer parte da produção do Festival Nova Dança, movimento artístico que questiona os rumos da dança na contemporaneidade. “A partir de lá, onde eu fiz uma participação como cantor, foi que conheci o burlesco”, lembra o ator e PM.

Ordem x desordem
Desde então, Alexandre equilibra a vida como agente de segurança e dançarino. “Eu sou uma única pessoa. Meu desempenho como artista me ajuda muito no meu trabalho como policial. A arte traz a questão do respeito com o ser humano, com a pessoa em todas as suas nuances. A atividade militar me ajuda como ator, no respeito aos valores e ao interesse do funcionalismo público”, explica.

Como artista, ele quebra as convenções sociais. Já vestido de policial, busca manter a ordem. Essa dualidade, entretanto, não é vista como um problema. “A corporação não oprime meu trabalho como artista. Inclusive, quando tentaram me ridicularizar por um personagem, meu superior direto me defendeu dizendo que minha arte não influenciava na minha carreira profissional”, revela.

Pedro B Camargo/Divulgação

Alexandre durante performance na festa A Simetria

Apesar de desenvolver as performances no palco e receber vários convites para apresentações exclusivas, Alexandre nunca saiu de um bolo em nenhuma festa de aniversário, por exemplo. Ele não faz eventos particulares, só atua em festas e shows dedicadas à arte burlesca na cidade.

Outro limite é a nudez completa. “Não é um problema, mas como Monroe La Von Teese eu nunca senti a necessidade de ficar nu e também não é o objetivo do burlesco”, pontua o ator. O estilo se diferencia do striptease convencional. Trata-se de uma vertente do teatro e da dança que consiste em uma paródia, às vezes lembrando a chanchada.

Exemplar raro
A dança burlesca é mais comum entre as mulheres. A performance realizada pelos homens chama-se “boylesque” e é mais frequente em países como Estados Unidos, França, Inglaterra e Canadá. Os performers que mais influenciam o brasiliense são os norte-americanos Mister Gorgeous, Jett Adore e Bazooka Joe.

Alexandre é o único homem praticante da dança no Centro-Oeste. A exclusividade, no entanto, não é um fator de orgulho. O artista reclama da falta de incentivo e do preconceito das pessoas com o estilo. “Todos tendem a ligar (o burlesco) à prostituição e à perversão, mas é uma arte como qualquer outra”, analisa.

O policial-artista integra diversos projetos ligados à cultura da capital. Entre eles, o Nostalgic Cabaret, pioneiro no burlesco do DF; e o grupo teatral Trupe de Argonautas, no qual viveu uma personagem transsexual.

Formação
A formação do artista mescla os treinamentos militares com o balé clássico e outros estilos, como o estileto (dança em cima de saltos-altos) e o jazz. Além disso, Alexandre investe em cursos de interpretação e de circo.

Reprodução

Na composição do nome, Alexandre buscou referências clássicas do entretenimento. Monroe La Von Teese é uma brincadeira entre Marillyn Monroe e Dita Von Teese. “Marilyn é, para mim, uma diva eterna, tanto na performance como no cinema. Foi e é muito julgada por ser símbolo sexual, mas sua contribuição é muito maior que isso.”

Alexandre se assume bissexual. Apesar de não ser militante nem ativista, ajuda na visibilidade dos movimentos LGBT. No ano passado, ele namorava uma mulher e o beijo do casal foi capa de um jornal como símbolo da Parada Gay.

O caso teve grande repercussão quando o público questionou se um casal heterossexual poderia representar o movimento. “Nós não somos heterossexuais, somos bissexuais. Causou muito transtorno e sentimos a invisibilidade da pessoa bi”, comenta.

 

 

COMENTE

polícia militarstrip-teaseBurlescoNostalgic CabaretAlexandre Adas
comunicar erro à redação