*
 

O Supremo Tribunal Federal (STF) não é só a porta de entrada dos processos que esperam a palavra final da mais alta Corte do Judiciário do país, como os da Lava Jato. Dentro do prédio projetado por Oscar Niemeyer, em 1958, o público também encontra arte. No entra e sai de advogados, ministros, jornalistas, as esculturas do vigilante Joaneison Moreira da Silva, 33 anos, chamam atenção.

Expostas nos balcões de entrada, na recepção, em mesas, as peças dão um charme especial às dependências do STF. Carregam um pouco da história de quem passa pelo local porque são feitas das etiquetas de identificação dos visitantes. Sobrepostos uns aos outros, os adesivos, que normalmente vão parar no lixo depois de usados, se transformam em símbolos da capital, como o Congresso Nacional, a Catedral de Brasília, a estátua da Justiça e a Ponte JK.

Quem entra na Corte e observa os trabalhos quer saber quem é o artista. Alguns questionam os funcionários até encontrarem o autor para perguntar sobre as obras, encomendar uma escultura ou pedir de presente.

Segundo os funcionários do STF, nos últimos meses, a presidente da Corte, Cármen Lúcia, se encantou com a escultura da Igreja São Francisco de Assis da Pampulha, conhecida como Igrejinha da Pampulha, que fica em Belo Horizonte (MG). “Acho que é por ser mineira. Ela passou por lá e comentou. Senti muito orgulho”, disse Joanison.

O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, que denunciou recentemente ao STF os ex-presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff e outros caciques do PT por organização criminosa, também achou um tempo para apreciar o trabalho. Gostou da Catedral Metropolitana de Brasília feita em adesivos de identificação. Pegou o objeto com atenção, leu os pedacinhos de nome, olhou as fotos e comentou sobre a beleza da escultura, na entrada da Corte.

 

Autodidata
Os objetos nasceram da observação de quem acompanha o movimento da Corte desde 2014. Entre os cumprimentos de ‘bom-dia’, ‘boa-tarde’ e ‘boa-noite’, Joaneison Moreira da Silva observou que as etiquetas de acesso ao STF eram jogadas fora após a saída dos visitantes ou eram coladas uma às outras, formando bolas. A partir dali, pensou que poderia reaproveitar o material. Primeiro, fez uma caneca e a levou para o ambiente de trabalho. O objeto começou a servir para colocar canetas e fez tanto sucesso que ele decidiu continuar.

Comprou um papel manteiga onde colava as etiquetas descartadas para não amassar e levava para casa, no Itapoã. Lá, passou a reproduzir os monumentos que via todos os dias ao passar por algum lugar da capital. A Torre Digital, também desenhada por Niemeyer, foi a primeira a ganhar forma com as etiquetas.

Com ensino médio completo e um curso de vigilante, Joaneison não teve um mentor para fazer arte. Segundo ele, o dom vem desde criança.

Minha família era muito pobre. Uma vez fui à feira com meu pai e vi dois carrinhos. Pedi que ele comprasse para mim. Muito bravo, me questionou: ‘Como posso comprar carrinhos se não temos dinheiro nem para o alimento?’. Chorei atrás da porta, fiquei triste"
Joaneison Moreira

A partir daquele momento, o menino de 5 anos passou a fazer os próprios brinquedos com latinhas de atum e óleo. Os carrinhos de lata faziam tanto sucesso que os amigos com brinquedos comprados em loja queriam trocar com Joaneison. Ao longo da vida, ele continuou a fazer trabalhos manuais com jornal e outros materiais.

História
Nascido na cidade de Formoso, Minas Gerais, a cerca de 300km de Brasília, aprendeu a se virar muito cedo. Joanison foi criado pelo pai, Jesuíno Moreira, e tinha que batalhar para conseguir estudar. “Meus pais se separaram quando eu tinha dois anos. Viemos para Brasília quando era pequeno, mas logo retornamos para Minas porque meu pai gostava da roça”, contou.

Aos 18 anos, quando conseguiu concluir o ensino médio, voltou à capital. Trabalhou como balconista, vendedor, ajudante de obras e atendente de uma farmácia. Neste último emprego, ele conheceu um homem que o indicou para a vaga de vigilante no STF.

Faculdade
Depois que as esculturas de etiquetas ficaram famosas, em 2015, um funcionário do STF o incentivou a estudar. Joaneison se inscreveu em uma faculdade de arquitetura. O curso era muito caro. A mensalidade ultrapassava R$ 1 mil. Como não podia pagar, esse rapaz, que prefere não se identificar, fez uma vaquinha com os outros servidores e pagou um ano de curso para o vigilante.

Depois, Joaneison conseguiu uma bolsa do ProUni, o programa do governo federal que concede bolsas de estudo integrais e parciais de 50% em instituições privadas de educação superior. Hoje, está no 5º semestre e com perspectivas de crescer. “Quero investir, atuar na área. Fazer cursos de artes. Aprender a trabalhar com resina, argila. Ver o que me chama atenção e reproduzir”, disse.

A ideia é transformar arte em sustento. “Faço as esculturas em casa com as etiquetas. Já vendi algumas, outras dei de presente. Mas não faço disso um negócio. Fiz três exposições e quero me especializar”, planeja o vigilante.

Quando concluir o bacharelado, será o primeiro dos irmãos de Formoso (MG) a ter um diploma de curso superior. “São cinco anos de curso. Quero aproveitar cada aula. Hoje, o reconhecimento do trabalho é o que mais me deixa feliz. Uma vez um visitante da Espanha reconheceu meu trabalho. Fiquei muito contente”, afirmou.

Embora não tenha uma próxima exposição prevista, quem entra no STF pode encontrar os trabalhos do artista. Ele troca todas as semanas as esculturas para não repetir. O vigilante já expôs no STF; na Unieuro, onde estuda; e no Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD).

 

 

COMENTE

comunicar erro à redação