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Após passar por sete cirurgias na coluna e ter ficado com um material metálico de 53 centímetros na jugular, Ana (nome fictício), uma das vítimas da máfia das próteses revelou que, depois de quase morrer, o médico Cícero Henrique Dantas, diretor-técnico do Hospital Ortopédico e Medicina Especializada (Home), tentou suborná-la para que “esquecesse o caso e não entrasse na Justiça”. Dantas foi um dos quatro suspeitos conduzidos pela Polícia Civil para depor na manhã desta quinta-feira (1°/9), na Operação Mister Hyde, da PCDF e do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT).

A suspeita dos investigadores é que Ana tenha sido vítima de tentativa de homicídio. A primeira cirurgia da mulher de 34 anos no Home foi em dezembro de 2014. Ela havia dado um mau jeito na coluna e fez 10 sessões de fisioterapia. Sem avanço na recuperação, a equipe médica do hospital sugeriu o procedimento, com a colocação de quatro parafusos e duas placas na coluna. “Tive infecção e, em janeiro, fiz o segundo procedimento. Depois, em um ano, fiz outras quatro cirurgias. No fim do ano passado, em uma delas, foi deixado o fio na minha jugular”, conta.

Dez dias após essa intervenção, ela começou a sentir dores no pescoço e no ouvido, dormência no lado direito do rosto e teve uma convulsão. A vítima diz que procurou o Home em 31 de dezembro do ano passado, mas teve o atendimento negado. “Eles falaram que não havia médicos e sugeriram que eu procurasse outro hospital, e foi o que fiz. Lá, fizeram uma tomografia e identificaram o fio-guia. Tive embolia pulmonar e trombose por causa disso, tive que fazer uma cirurgia cardíaca e fiquei vários dias na UTI. Tudo por conta desse erro médico”, completa ela.

O “esquecimento” do objeto na jugular fez Ana registrar uma ocorrência de erro médico na 1ª Delegacia de Polícia (Asa Sul). Foi então que ela e o advogado começaram a ter problemas com a direção do Home. “Eles foram frios, falaram que era mentira. Quando comecei a pedir os meus prontuários, se negaram e me ofereceram dinheiro”, afirma.

O advogado Jean Cléber Garcia, que representa a vítima, diz que procurou a direção do Home solicitando todos os prontuários dela e teve uma surpresa. “Os documentos começaram a sumir e a ter as datas alteradas. Questionei tudo isso e eles perguntaram quanto eu estava querendo. Disseram que, quando uma pessoa morre, a Justiça costuma dar R$ 10 mil à família, mas que Ana estava viva, então poderia ser a metade”, relata o defensor.

Segundo Garcia o suborno foi oferecido em uma reunião na qual estavam Cícero Henrique Dantas e outros diretores do Home, além de representantes do corpo jurídico e da enfermagem da instituição.

As intimidações não pararam por aí. “Posteriormente, ela (a vítima) foi procurada por outro representante do hospital. Perguntaram quanto ela queria e eles pagariam, contanto que assinasse um documento isentando todo o corpo médico e da enfermagem, comprometendo-se a não entrar na Justiça”, completa Garcia. “A minha cliente não quer dinheiro, não quer reparação civil, mas moral. E eu estou nesse caso pela função social, para tentar evitar que eles continuem fazendo isso com outras pessoas.”

Outro lado
Por meio da assessoria de imprensa, o hospital Home informou que não se pronunciaria mais sobre o caso nesta quinta (1°), já que, pela manhã, enviou uma nota à imprensa informando que os médicos-cirurgiões citados na operação não fazem parte do corpo clínico da unidade. “Apenas operam, eventualmente, nas dependências, já que são habilitados pelo Conselho Regional de Medicina (CRM) e obtiveram autorizações dos planos de saúde (para fazer os procedimentos)”. A instituição afirmou ainda que o diretor-técnico do hospital foi conduzido para prestar esclarecimentos e que colaborará com as investigações.”

O esquema
Na ação desta quinta (1), a Divisão Especial de Repressão ao Crime Organizado (Deco) desarticulou um suposto esquema criminoso envolvendo um cartel formado por hospitais, médicos e empresas fornecedoras de órteses, próteses e materiais especiais (OPMEs). Treze pessoas foram presas e R$ 500 mil apreendidos. Estima-se que cerca de 60 pacientes foram lesados em 2016 somente por uma empresa. O esquema movimentou milhões de reais em cirurgias, equipamentos e propinas.

Além do caso de Ana, há relatos de cirurgias sabotadas para que o paciente ficasse sendo operado e, assim, gerasse lucro para o esquema, utilização de produtos vencidos e troca de próteses mais caras por outras baratas.

Nas primeiras horas da manhã, agentes foram às ruas para cumprir 21 mandados de busca e apreensão, 13 mandados de prisão (oito temporárias e cinco preventivas) e quatro conduções coercitivas (quando a pessoa é obrigada a depor) em várias regiões do DF, como as asas Sul e Norte e o Lago Sul.

 

 

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