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A Polícia Civil do Distrito Federal investiga o que motivou o policial federal Ricardo Matias Rodrigues, 44 anos, a disparar contra duas pessoas em uma festa no barco Lake Palace na noite de sábado (8/10). Um dos alvos, Cláudio Muller Moreira (foto em destaque), funcionário da área de tecnologia da informação do Banco do Brasil, não resistiu ao ferimento e morreu. Ele tinha 47 anos. A outra vítima, Fábio da Cunha, 37, foi socorrida em situação estável, passou por cirurgia e não corre risco de morte.

Após a tragédia, envolvidos e testemunhas se apresentaram à 5ª Delegacia de Polícia (Área Central) para prestar esclarecimentos. Além do próprio autor do disparo, foram ouvidas esposas de Ricardo, de Cláudio e de Fábio, um marinheiro que trabalhava na embarcação e um policial civil que estava na festa.

As versões divergem em alguns aspectos. Mas há um fator em comum nos depoimentos: o desentendimento entre mulheres presentes na festa foi o motivo da discussão que acabou na fatalidade.

O Metrópoles teve acesso aos depoimentos das testemunhas. Confira o que cada uma delas contou à Polícia Civil, que terá de decifrar esse quebra-cabeça para desvendar o crime.

Ricardo Matias Rodrigues — policial federal e autor dos disparos
Policial federal há mais de 10 anos, Rodrigues contou que estava na festa por se tratar do aniversário de colegas. O evento, organizado por sua esposa, ocorria em um barco, o Lake Palace, que estava ancorado no pier do Motonaútica, no Setor de Clubes Norte.

Rodrigues relatou que a festa tinha de 50 a 60 pessoas e, apesar do aniversário ser de colegas, havia muitos desconhecidos. Segundo o policial, a festa estava no fim quando viu uma pequena confusão.

Naquele momento, o policial teria visto um homem e uma mulher saindo do barco. Pela descrição, seriam Cláudio e a esposa dele, Valderly. Eles ficaram cerca de três minutos fora da embarcação e, depois, teriam voltado com mais um homem, provavelmente Fábio.

Ao tentarem retornar para a embarcação, a esposa de Rodrigues, Renata Andrade, que tinha organizado a festa, foi até o píer para entender a situação. Na versão do policial, um dos homens teria, então, dado um soco ou tapa em Renata, sua mulher. Rodrigues conta que sacou a arma e a apontou para o suposto agressor.

Segundo o agente, o agressor veio em sua direção na tentativa de tomar a arma dele. Foi então que Rodrigues disparou contra o abdômen da vítima. Logo depois, o outro homem que estava no píer também teria tentado pegar a arma. Ricardo Rodrigues afirma que avisou que atiraria caso a pessoa não se afastasse, mas como ela não recuou, ele atirou novamente. O agente não soube dizer se atirou primeiro em Cláudio ou em Fábio.

Rodrigues então teria pedido para alguém chamar por socorro e avisou aos presentes que se apresentaria à delegacia. Dois policiais civis que estavam no local retiraram a munição restante da arma, devolvendo-a a Rodrigues para que ele se apresentasse às autoridades.

Na delegacia, o agente admitiu que havia ingerido álcool.

Renata de Andrade Silva – Promoter de festas e esposa de Ricardo, autor dos disparos
A promoter contou à polícia que tinha organizado a festa de aniversário de três amigas: Iara Carvalho, Fran Marques e Jussimeire da Cruz, e que convidou cerca de 60 pessoas.

Segundo Renata, ao final da festa, quando estava pagando os fotógrafos, ela teria visto uma confusão no centro do barco envolvendo uma das aniversariantes. Fran e Valderly — esposa de Cláudio — estariam discutindo. Fran disse que estava no banheiro com o marido quando Valderly os teria provocado.

Enquanto as mulheres discutiam, Cláudio teria aparecido e retirado Valderly do barco. Em seguida, ele teria voltado acompanhado de Fábio, “como se estivesse muito furioso e quisesse tirar satisfações”, segundo o relato da promoter.

Renata afirmou que tentou apaziguar a situação, mas os dois homens a teriam empurrado com força. Ao ver a situação, Ricardo teria se aproximado e gritou: “Polícia, fica aí”.

Mas Cláudio teria reagido e tentado agredir o policial, que efetuou um disparo, derrubando a vítima. Em seguida, Fábio teria ido para cima do agente, mesmo com a ordem para se afastar. Ricardo novamente atirou, desta vez em Fábio.

Valderly da Silva Feitosa —  Fotógrafa e esposa de Cláudio, a vítima que morreu
A testemunha contou que era casada com a vítima havia 13 anos e que era amiga de uma das três aniversariantes.

Valderly e o esposo foram com um casal de amigos, Fábio e Elaine. Segundo seu relato, todos estavam se divertindo, ingerindo bebida alcoólica e dançando normalmente. Por volta de 23h, já na saída, ela contou que foi ao banheiro e lá teria levado três tapas na cara de Fran, uma das aniversariantes, que também a teria xingado de vagabunda.

A fotógrafa, então, narrou o ocorrido ao marido, mas não soube explicar exatamente o que o ocorreu em seguida. Em seu depoimento, ela afirmou que apenas se lembra de ver Cláudio caído no chão, fora do barco, e que correu para socorrê-lo. Ela diz que em momento algum foi tirada da festa.

Antes da chegada do Corpo de Bombeiros, Valderly relatou ter percebido um sangramento no lado do abdômen do marido. Ela seguiu com ele para o Hospital de Base do DF. Segundo ela, Cláudio não estava ingerindo bebida alcoólica, apenas energéticos. No hospital, ela soube que o marido havia sofrido três paradas cardíacas e não resistiu.

Elaine Alves Santos — Esposa de Fábio da Cunha, o baleado que sobrevieu
A dona de casa foi convidada à festa pela sua massagista e uma das aniversariantes, Jussimeire. Ela foi com o marido e o casal de amigos Val e Cláudio.

Segundo Elaine, ela e o marido são evangélicos e não ingerem bebidas alcoólicas. Durante a festa, Valderly teria bebido bastante e, em certo momento, pediu ajuda para ir ao banheiro, pois não se sentia bem.

Quando as duas saíram do banheiro, Valderly teria encontrado uma mulher — que seria Fran —, mas Elaine disse que não presenciou a conversa entre as duas. Elaine seguiu para a mesa onde estava o marido.

Pouco tempo depois, Valderly se aproximou e disse para eles — e também para Claudio — que Fran a teria agredido. De acordo com Elaine, Valderly admitiu que havia provocado Fran e o marido dela, por isso teria sido agredida pela aniversariante.

Cláudio teria ficado furioso e decidiu tomar satisfações, acompanhado por Fábio. Elaine conta que, de repente, escutou disparos de arma de fogo, sendo que um deles teria pegado no marido e os outros em Cláudio.

Françueldo Dantas de Souza — Marinheiro do barco Lake Palace
Segundo o marinheiro, tudo transcorria bem até por volta das 22h30, quando ele ficou sabendo de uma discussão entre algumas mulheres. Françueldo viu, então, Valderly ser carregada por Cláudio, Fábio e sua esposa, Elaine, para fora do barco. O marinheiro perguntou a Cláudio o que estava acontecendo, e ele teria dito que “as mulheres brigaram, mas acabou”.

Fora do barco, Valderly disse para Claudio que uma mulher a teria agredido, e o marido teria ficado nervoso. Ele e Fábio tentaram voltar à embarcação em busca da pessoa que teria agredido Valderly. Naquele momento, Françueldo viu Claudio batendo boca com Ricardo Rodrigues, que, então, atirou contra a vítima. Logo em seguida, Fábio da Cunha teria se alterado, mas o marinheiro ficou assustado e saiu do local.

Françueldo disse que não viu Ricardo apontando a arma para Cláudio ou Fábio nem percebeu a presença de Renata no local. Apenas afirmou que escutou três disparos de arma de fogo.

Jose Helder – Policial civil e testemunha
O policial civil contou que, no momento em que ouviu os disparos, foi violentamente puxado por sua esposa para baixo de um balcão para se proteger. Ele ficou com a mulher cerca de um minuto abaixado, sem ver a cena.

Assim que se levantou, viu Ricardo Rodrigues gesticulando, tentando se justificar e dizendo: “Eles tentaram pegar minha arma e então eu dei um tiro em cada um”.

Jose Helder relatou que conhecia Rodrigues e, por ser policial civil, pediu que o colega da PF entregasse a arma. O carregador e a munição foram retirados e a pistola devolvida ao policial federal.

Em seguida, a testemunha foi checar o estado de saúde das vítimas, que estavam do lado de fora do barco. Segundo Jose Helder, Cláudio estava consciente, mas reclamava que não conseguia respirar.

Mais tarde, o policial civil levou o carregador e as nove munições intactas, de calibre 9mm, para a 5ª DP.

 

 

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