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De acordo com a Polícia Civil, pelo menos 100 pacientes de médicos alvos da operação Mister Hyde já foram ouvidos. As histórias contadas têm enredos semelhantes: cirurgias caras, mal-sucedidas, com equipamentos de baixa qualidade que precisaram ser trocados por outros, sem falar na dor e na indignação, já que muitos ficaram incapacitados por conta de sequelas físicas e psicológicas que levarão por toda a vida.

Entre as vítimas, está um promotor de vendas de 41 anos. Sem querer se identificar, ele contou que em 2007 procurou o médico Rogério Gomes Damasceno com muitas dores nas costas. O profissional disse que os discos da lombar estavam desgastados e que ele precisava ser operado para a colocação de oito pinos.

Seis meses depois, dois pinos quebraram. Uma nova cirurgia foi realizada, com o mesmo médico. “Só que o médico tirou todos os pinos e  esqueceu o pedaço de um, o que causou uma infecção e eu quase morri”, disse. As cicatrizes nas costas não são o único motivo de revolta do vendedor: “Eu me assustei quando vi na televisão que ele estava envolvido no esquema. Para mim, era um bom médico e tudo tinha sido um acidente. Eu nunca mais consegui trabalhar direito e sofro com dores constantes”.

Larissa Rodrigues/Metrópoles

O promotor de vendas mostra as intervenções realizadas em sua coluna

 

O servidor público aposentado Edson Barbosa, 71 anos, colocou seis próteses na coluna há cinco anos. Ele contou que foi operado por um dos médicos envolvidos no esquema que superfaturava e realizava cirurgias sem necessidade, Johny Wesley Gonçalves Martins: “Não consigo encostar o dedão no chão. Confiei nele. Ele me disse que era acostumado a fazer aquilo. Mas nunca melhorei. Convivo com dores constantes na perna, não ando direito, minha vida ficou completamente prejudicada.”

O aposentado contou que tinha um problema na coluna que afetava a perna. Fez a cirurgia pelo plano de saúde. Disse que na época o procedimento custou cerca de 200 mil. Porém, 15 dias após a cirurgia ele começou a passar mal. Sentia fortes dores na outra perna, que nem tinha problema. O médico receitou remédios para aliviar a dor, mas as doses eram tão fortes que ele chegou a desmaiar três vezes. “Ele me recomendou fisioterapia, RPG, disse que ia passar, mas nunca passou”, lamentou.

Johny Wesley é neurocirurgião e foi apontado pela polícia como líder do esquema. Proprietário da TM Medical, abandonou os consultórios para administrar o negócio. Segundo a polícia, o esquema envolvia os médicos que atendiam no Hospital Home, na 613 Sul, os donos e revendedores da TM Medical, empresa especializada na venda de órteses, próteses e equipamentos especiais, e um operador que seria  Antônio Márcio Catingueiro Cruz.

Também atuando no Home, ele fazia o contato comercial entre médicos, planos de saúde e fornecedores. Seria o responsável por orientar cirurgiões e a TM Medical sobre como fraudar auditorias para incluir procedimentos desnecessários. O hospital nega qualquer envolvimento no esquema.

Mirelle Pinheiro/Metrópoles

 

Uma outra paciente, de 27 anos (foto acima), foi operada pelo médico Henry Greidinger Campos, em 2011. Ela denunciou à polícia que o profissional teria pedido a compra de três pinos, mas só implantou um, “que ficou torto”.  “Após a cirurgia, ele se recusou a dar atendimento ou esclarecimentos, dizendo que havia mudado de departamento”, disse. A jovem perdeu a cartilagem do joelho e precisa fazer infiltração com frequência, um procedimento que custa R$ 2 mil.

Eu acreditei nele como profissional, me passou credibilidade. Acabou com os sonhos da minha filha, ela não pode fazer os concursos que deseja, atividades que gostava"
Mãe da jovem que perdeu a cartilagem

No vídeo, a paciente conta a sua história:

 

“Dor insuportável”
Uma outra paciente, que preferiu não dar o nome, ficou muito nervosa ao chegar à polícia, ao reviver o drama desde que foi operada por um dos integrantes da máfia. Ela relatou que ficou com a perna dormente e teve que fazer uma nova cirurgia. “O pino que colocaram na minha coluna estava torto. Suspeito que fizeram isso para me forçar a fazer uma nova cirurgia. De tão torto, o pino ficou pinçando o nervo. A dor é insuportável”, desabafou. Ela afirmou que fez a cirurgia com o médico Juliano Almeida e Silva, um dos alvos da operação Mister Hyde. Juliano nega fazer parte do esquema.

O vigilante Amarildo Castro, 45 anos, também esteve na Deco nesta manhã. Explicou que fez duas cirurgias no menisco, 60 sessões de fisioterapia, tomou várias injeções de corticoides e precisou recorrer a outros médicos para tentar resolver o problema. Por conta disso, ficou encostado pelo INSS e acabou demitido da empresa em que trabalhava. “Perdi meu emprego, estou com um problema grave na perna e perdi meu plano de saúde”, reclamou indignado.

O esquema teria movimentado milhões de reais em cirurgias, equipamentos e propinas. Há casos de pessoas que foram submetidas a procedimentos desnecessários, como sucessivas cirurgias, com o objetivo de gerar mais lucro para os suspeitos. Em outros, conforme revelado pelas investigações, eram utilizados produtos vencidos e feita a troca de próteses mais caras por outras baratas.

 

 

 

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Máfia das Próteses
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