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A saga de Dinalva Gomes, 39 anos, para chegar ao Instituto de Cardiologia do Distrito Federal (ICDF) na última semana comoveu os brasilienses. A moradora de Ceilândia, que estava na fila de espera para ganhar um novo coração, recebeu uma ligação do hospital para fazer o transplante. Ela contou com ajuda do Serviço Móvel de Urgência (Samu) e venceu o engarrafamento no trânsito. No entanto, após passar por exames, não pôde passar pelo procedimento. Na madrugada deste sábado (17/9), Dinalva, finalmente, conseguiu um novo coração. Só que ainda precisa de ajuda: desta vez, de doação de sangue.

Histórias como a de Dinalva dão o tom da rotina da equipe de transplantes do ICDF, que faz cirurgias cardíacas desde 2009 e dá uma nova chance a muitos que já haviam desistido de lutar. Em números absolutos, São Paulo é a unidade da Federação que mais faz transplantes de coração. Foram 61 procedimentos do tipo entre janeiro e junho deste ano. No entanto, o Distrito Federal – vice-líder nacional, com 19 transplantes no período – está em primeiro lugar quando o quesito é analisado proporcionalmente à população local: são 13 por cada grupo milhão de pessoas. Os dados constam no Registro Brasileiro de Transplantes.

Uma das beneficiadas em 2016 foi a agricultora Ivone Bocorni, 55. Ela, que sofria com um problema hereditário, entrava e saía constantemente de hospitais havia cinco anos. O coração novo chegou há pouco menos de um mês. “Eu estava morrendo. Passei dois meses no hospital só à base de medicação. O meu coração estava tão debilitado que nada mais funcionava direito. Tive uma nova chance e ela é maravilhosa. Estou lutando por tudo o que recebi”, disse, emocionada, ao Metrópoles.

Nascida em Santo Cristo (RS) e criada no Paraná, Ivone conta que o problema cardíaco vem de família. “O meu pai tinha, uma das minhas irmãs morreu de infarto fulminante aos 31 anos e outra ainda luta com o problema. Eu estou muito bem agora. Em recuperação, mas fazendo tudo o que os médicos mandam para que tudo corra da melhor forma possível”. Ansiosa para retomar as atividades normais, não vê a hora de voltar a caminhar: “Sempre fui muito ativa”, garante.

Prioridade nacional
A aposentada Elaine Gomes, 39, conhece bem a sensação de ver o coração falhar. Portadora da Doença de Chagas, ela viu sua condição piorar ao longo dos 11 anos em que viveu com o parasita. O diagnóstico é o mesmo que levou os pais a óbito. De paciente de ambulatório, chegou ao topo da lista de espera nacional. Sofreu com arritmias e bradicardia antes de ter os primeiros sintomas da insuficiência cardíaca.

Você não dá conta nem de pentear o cabelo, de caminhar… Não consegue ficar deitada, porque acaba acumulando líquido e ele vai para o pulmão. É difícil até de respirar."
Elaine Gomes

“Durante as crises de insuficiência, eu passava uma semana na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) para tomar uma medicação e fortalecer o coração. Fui hospitalizada diversas vezes por conta disso. O problema é que chegou um momento em que os remédios pararam de fazer efeito”, relatou Elaine.

Em janeiro do ano passado, Elaine foi diagnosticada com caquexia cardíaca – condição em que observa-se a perda da massa muscular, com consequente prejuízo da mobilidade e da capacidade funcional do paciente. “Meu coração passou a inibir a fome para não gastar energia. Com isso, emagreci 12kg”, relembrou.

ICDF/Divulgação

Médicos fazem transplante de coração no ICDF

Ela conta que a nova condição agravou seu estado e a deixou ainda mais debilitada. Em agosto de 2015, recebeu a orientação do médico para fazer o transplante. Dois meses depois, já era a primeira da lista de espera em todo o país.

O novo coração chegou após poucos dias. “O que mais me emocionou foi sentir o sangue circulando no meu corpo, porque eu não sentia isso. Me emocionei quando vi meu tornozelo pulsar”, contou a aposentada com os olhos cheios de lágrima. “Independente de religião, acho que a fé cura. O meu lema foi esse. E está dando tudo certo”, finalizou.

Os critérios para a seleção de receptores são mais minuciosos do que se imagina. Além de ter o tipo sanguíneo, a altura e o peso compatíveis com o do doador, o paciente que recebe o coração deve realizar exames específicos de contagem de anticorpos e assim reduzir ao máximo as chances de rejeição ao órgão.

“Por isso, o padrão é chamarmos os três primeiros pacientes do ranking que sejam compatíveis com o doador. Às vezes, todos têm o mesmo tipo sanguíneo, altura e peso, mas o filtro mais fino detecta que um tem menos chances de rejeição que o outro – e não necessariamente será o primeiro da fila. Avaliamos tudo isso para ter o maior índice de sucesso possível”, explica Núbia Welerson Vieira, superintendente do ICDF. Foi o caso de Dinalva. “Ela era uma das possíveis candidatas e, após os testes, vimos que o órgão era mais adequado para um outro paciente”, afirma.

Atualmente, 12 pacientes aguardam na fila por um coração no Distrito Federal. A média mensal é de quatro transplantes na capital. “Por estarmos na região central, temos um raio maior de captação de órgãos. Com isso, conseguimos buscá-los com mais frequência e não dependemos somente da oferta de Brasília, o que reduz bastante o tempo do paciente na fila de espera”, diz a superintendente do ICDF.

Segundo a médica, o decreto que disponibiliza um avião da Força Aérea Brasileira (FAB) exclusivamente para o transporte de órgãos, assinado pelo presidente Michel Temer (PMDB) em junho, também facilitou bastante o trabalho. “As empresas comerciais e a própria FAB já eram parceiros nossos. Mas como alguns órgãos – como o coração – têm uma vida útil mais curta fora do corpo, é importante ter essa possibilidade de transporte imediato”, conclui Núbia.

Os transplantes só são feitos após a constatação da morte encefálica do paciente doador, que leva 16 horas. É importante ressaltar que não é possível doar em caso de falência de órgãos, somente se todos eles tiverem condições de ser ofertados. A única possibilidade de doação individual é quando se trata das córneas. Os outros órgãos devem ser doados juntos e podem beneficiar até seis pacientes.

 

 

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