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A crise nos hospitais regionais do Distrito Federal parece não ter fim. O descaso nas unidades se reflete no tratamento aos pacientes. Eles passam por situações como a de Ameli Nardeli, 77 anos, morta nessa quarta-feira (30/8), em decorrência de infecção generalizada. A filha dela, Elizabeth Nardelli, 33, relata que a idosa sofreu maus-tratos no Hospital Regional de Santa Maria, onde estava internada a cerca de dois meses.

A mulher afirma que a falta de cuidados dos profissionais de saúde da unidade resultou em escaras — necrose na pele, provocada por pressão permanente — nas costas da mãe. O ferimento estava tão avançado que o cóccix, osso da coluna vertebral, ficou à mostra. A abertura teria servido como porta de entrada para bactérias, causadoras do quadro infeccioso.

Elizabeth relata que enfermeiros teriam de virar a mãe na maca, para trocá-la de posição e, assim, evitar o surgimento da escara. “Por causa da gravidade do ferimento que eu vi, duvido que os enfermeiros tinham esse cuidado”, lamenta a mulher, que acusa o hospital de omissão.

“Minha mãe reclamava todos os dias de dores perto do glúteo. Mas a equipe médica dizia que não era grave. ‘Apenas uma vermelhidão, e não nos deixava ver o local da dor. Nós implorávamos”, relembra. Elizabeth vive no estado americano do Texas e desembarcou no Brasil em 8 de julho, após saber que a mãe tinha uma necrose em dedo dos pés, causada pela diabetes.

Por causa das constantes reclamações da idosa sobre as dores na região lombar, um médico sugeriu à família que comprasse uma pomada à base de papaína, para impedir o avanço da escara. Elizabeth, então, providenciou o medicamento. Mas, segundo ela, a equipe médica sequer espalhava o remédio sobre a úlcera. “Uma auxiliar me disse que passava a papaína em todo o corpo da minha mãe, menos no local da necrose.”

Nas visitas diárias à mãe, Elizabeth notava também que ela não usava uma almofada própria para quem sofre de hemorroida, comprada pela filha — ao custo de R$ 140 — a pedido de um médico.

Agonia
O drama de Ameli começou em julho. No dia 3 daquele mês, ela deu entrada em uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Samambaia, por causa da necrose no dedo do pé, o qual teria de amputar. Dois dias depois, ela foi transferida para o Hospital de Base, para passar pelo procedimento.

Porém, teve pneumonia na unidade, o que impedia a amputação do dedo. A situação exigia uma transferência para a UTI. O Hospital de Base, à época, não tinha esse tipo de leito disponível. Por isso, a família da paciente teve de desembolsar R$ 1 mil por uma UTI móvel, para levá-la ao Hospital de Santa Maria. A filha da idosa conta que, até a primeira semana de internação, a saúde da mãe não estava debilitada.

No Hospital de Santa Maria, a situação de Ameli só piorou. A pneumonia evoluiu para infecção pulmonar e se espalhou para outros órgãos, como rins e bexiga. E mais: o problema afetou também o lado psicológico, deixando a paciente com depressão.

Durante o tratamento, os médicos retiraram de Ameli a sonda que filtrava a urina. Dias depois, ela contraiu infecção no aparelho urinário. Então, os médicos recolocaram a sonda. A família da idosa acredita que nesse período houve contato de urina e fezes com a escara, o que pode ter causado a infecção generalizada.

Elizabeth relata que, em uma das visitas à paciente, encontrou a idosa amarrada à maca. Ela relata que uma enfermeira justificou dizendo que atou os braços da paciente porque ela tentava arrancar a fralda. “Na verdade, acho que ela queria apontar o local da dor.”

Falta de UTIs
Na quarta-feira, o Metrópoles mostrou que a oferta de UTIs caiu quase 30% no DF nos últimos três anos, de acordo com o Tribunal de Contas local. Durante a fiscalização, os auditores verificaram que, de 2014 a 2017, o número baixou de 432 para 310.

Outro ponto é ainda mais preocupante: essa queda foi acompanhada de um crescimento significativo do percentual de leitos bloqueados. Em 2014, das 467 vagas em UTIs existentes, 35 estavam inutilizadas. Neste ano, de um total de 400, 90 encontravam-se indisponíveis para os pacientes em estado grave.

O outro lado
Por meio de nota, a Secretaria de Saúde do DF afirmou que Ameli Nardeli recebeu toda assistência necessária durante a internação. A pasta acrescentou que é procedimento padrão no Hospital de Santa Maria alternar a posição de pacientes nas macas a cada duas horas, para evitar ou tentar reduzir as escaras. E ressalta que assim o fez com a idosa.

Leia a nota da Secretaria de Saúde:

A direção do Hospital Regional de Santa Maria esclarece que a paciente A.N.A. recebeu toda a assistência necessária durante a internação. Diante da situação clínica, todos os protocolos aplicáveis ao caso foram seguidos e ela recebeu assistência em um leito regular de UTI, sendo acompanhada por equipe treinada e qualificada.

A direção do hospital ressalta que faz parte da rotina e é procedimento padrão alternar a posição dos pacientes em UTI a cada duas horas para evitar ou tentar reduzir quadros de escaras, conforme conduta feita com a respectiva paciente. A ferida pode surgir devido às condições clinicas e longo período de acamação do paciente.

A Secretaria de Saúde esclarece, ainda, que a escala de médicos em toda a rede é rotativa, por isso, não é possível que a paciente seja atendida pelo mesmo médico diariamente. Contudo, todos os procedimentos e detalhes da evolução clínica do paciente são, obrigatoriamente, registrados em prontuário eletrônico para que o tratamento do cidadão não seja descontinuado dentro das unidades do Distrito Federal.

 

 

 

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