*
 

Dois dos médicos suspeitos de integrar a Máfia das Próteses já foram processados sob a acusação de terem cometido erros em procedimentos cirúrgicos. Leandro Pretto Flores e Rogério Gomes Damasceno foram presos em 1°/9, na Operação Mister Hyde, deflagrada pela Divisão Especial de Repressão ao Crime Organizado (Deco).

Flores foi acionado judicialmente em 2010, por uma família que alega danos irreversíveis após a realização de uma biópsia no cérebro feita no Hospital Santa Helena. O caso tramita na 16ª Vara Cível. O magistrado responsável pelo processo pediu para que o médico indicasse um perito. Na ocasião, Flores indicou o neurocirurgião Johnny Wesley Gonçalves Martins, dono da TM Medical, que também foi preso na operação policial.

Outro suspeito de integrar a Máfia das Próteses, Rogério Gomes Damasceno é réu em duas ações: uma de 2013 e outra de 2014, nos hospitais Daher e Home, respectivamente. Em um dos casos, uma mulher de 42 anos chegou a perder a visão. A complicação teria ocorrido após a introdução de um balão no rosto para corrigir um trauma. Depois da cirurgia, a paciente passou a não enxergar. O processo tramita na Vara Cível do Riacho Fundo.

A segunda ação contra Damasceno remete a uma cirurgia feita na coluna de um paciente. A intervenção teria lesionado nervos e causado dores insuportáveis ao homem, que ficou internado no Hospital Home.

Novas vítimas
Desde que a Operação Mister Hyde revelou a existência de uma máfia composta por médicos e representantes de ao menos uma empresa de equipamentos de órteses e próteses, multiplicaram-se os relatos de pessoas prejudicadas pela suposta quadrilha que lesava pacientes para lucrar à custa da saúde alheia. Na manhã desta terça-feira (6), cinco vítimas estiveram na Divisão de Repressão ao Crime Organizado (Deco). Até agora, 60 pessoas procuraram a unidade policial.

Uma copeira de 33 anos que pediu para ter o nome mantido sob sigilo não conseguiu conter as lágrimas ao relatar seu caso. Em 2014, ela sofria com muitas dores na coluna e procurou um especialista. Por meio do plano de saúde, consultou-se com o médico Johnny Wesley em uma clínica na Asa Sul. O ortopedista a encaminhou para uma cirurgia, realizada no Hospital Santa Marta, em maio. Mas, após uma artrodese (imobilização permanente de uma articulação, fixada cirurgicamente), o quadro piorou. “Fiquei seis meses em cima de uma cama sem ao menos conseguir fazer necessidades básicas. Até hoje sinto muitas dores e não tenho mais condições de trabalhar”, conta.

Rafaela Felicciano/Metrópoles

 

No ano passado, a copeira voltou à clínica para uma consulta com Wesley, mas o médico não estava mais atendendo lá. A secretária do local indicou o cirurgião Marco de Agassiz Almeida, que também é médico-legista lotado na Policlínica da Polícia Civil e foi preso na semana passada. Ela, então foi submetida a outra operação, desta vez no Hospital Daher, para a retirada de pinos. O procedimento ocorreu em agosto deste ano, mas, novamente, as dores continuaram.

Após ver as reportagens sobre o caso, a copeira decidiu ir à polícia.” O sentimento é de ódio, de raiva”, afirma. Ela irá buscar um advogado para adotar as medidas cabíveis e já registrou o boletim de ocorrência. O depoimento da copeira será agendado.

O bombeiro Juracir Rosalino (foto principal), de 44 anos, também procurou a delegacia, mas não chegou a registrar ocorrência, pois não apresenta problemas de saúde evidentes. Ele passou por uma cirurgia de hérnia de disco em junho de 2013, realizada pelo médico Henry Greidinger Campos, um dos investigados na operação, que também chegou a ser preso. “Depois das reportagens, fiquei com receio de que os quatro parafusos usados na cirurgia fossem de má qualidade. Vou buscar outro médico para saber se há riscos “, disse.

Suposta hérnia de disco
Outra paciente de Henry Campos foi a promotora de vendas Silesia Rosário Araújo, de 44 anos, que começou a se consultar com o médico em 2012. Ela apresentava dores nas costas e, por algum tempo, tratou o problema com fisioterapia. Mas Campos indicou uma cirurgia para tratar uma suposta hérnia de disco. “Ele disse que só a operação poderia resolver minha situação e, se não fizesse, poderia perder o movimento das pernas. Explicou que seria uma cirurgia rápida e simples.”

Entretanto, no dia do procedimento, em janeiro de 2014, não foi isso o que aconteceu. “Ele disse que não era muito bem o que tinha explicado e que a operação seria maior. Tive que decidir na hora e me arrependo até hoje.” A paciente ficou na sala de cirurgia do Hospital Santa Luzia por seis horas e teve implantados seis parafusos e duas placas metálicas na coluna.

Rafaela Felicciano/Metrópoles

 

Após o procedimento, as dores continuaram. O médico chegou a pedir nova cirurgia apenas quatro meses depois da primeira, alegando que uma peça havia se soltado, mas Silesia se negou a voltar ao centro cirúrgico.

A mulher deixou o emprego e atualmente tem dificuldade em fazer atividades cotidianas. “Não consigo me abaixar e tenho que dirigir com uma cinta. É como se minha coluna estivesse amarrada 24 horas”, relata, indignada. A promotora de vendas ficou com receio de procurar a polícia antes.

Como processar um médico rico?"

Mas, com as reportagens publicadas nos últimos dias, ela resolveu buscar ajuda.

Cinco cirurgias
Outra vítima, que preferiu não se identificar, conta que passou por cinco cirurgias em menos de um ano. Ela sofre uma doença rara de hipertensão intracraniana, que pode levar à cegueira. Ao perceber uma piora no quadro, em 2013, consultou-se com o médico Rogério Damasceno.

Em 2014, Damasceno afirmou que era preciso fazer uma cirurgia de emergência. “Ele colocou uma válvula de silicone nas minhas costas. Mas, meses depois, disse que a válvula estava entupida e fez nova operação”, conta.

Em maio do mesmo ano, a paciente começou a apresentar dores na coluna e Damasceno indicou outra cirurgia, dessa vez para hérnia de disco. Pouco tempo depois, a vítima passou a sentir uma nova dor, na região da bacia, e mais uma operação foi feita. O quinto e último procedimento foi realizado em abril deste ano, novamente na válvula.

Rafaela Felicciano/Metrópoles

 

Após tantas intervenções, o médico simplesmente deixou a paciente. “Ele disse que não sabia mais o que fazer e me encaminhou para outro especialista.”

Devido às seguidas cirurgias, a vítima mal consegue se abaixar. “Estou grávida de quatro meses e meu obstetra disse que a gravidez é de risco por causa dos problemas na coluna, problemas que eu não tinha antes”, lamenta.

Segundo ela, Damasceno sempre indicava o Hospital Home, mas o plano de saúde dela não era conveniado com a instituição, e os procedimentos foram feitos nos hospitais Santa Luzia, Santa Marta e Alvorada.

“Só piorei depois da cirurgia”
Outra vítima que também preferiu não se identificar passou por uma cirurgia de hérnia de disco com Marco Agassiz, em 2014. “Ele disse que curaria minhas dores nas costas. Mas só piorei depois”, relata a vítima.

Segundo ela, antes do procedimento conseguia trabalhar como auxiliar de serviços gerais. Hoje, sequer consegue fazer atividades cotidianas. O médico chegou a sugerir uma nova operação, uma infiltração na coluna, mas a paciente não quis. Atualmente, trata as dores com fisioterapia.

Rafaela Felicciano/Metrópoles

 

Outro lado
O advogado do Henry Campos, Cleber Lopes, disse que o médico “não tem nada a ver com essa máfia e que realizava apenas procedimentos para tratar dores, sem uso de próteses”. Já o defensor de Leandro Pretto Flores, Wendell Santana, informou que todas as cirurgias feitas pelo cliente foram “adequadas, necessárias e que ele nunca usou nenhuma prótese ou órtese sem necessidade ou fora da literatura médica”.

A defesa de Rogério Damasceno alega que o cliente é um “profissional respeitado e que, tão logo tenha acesso aos autos, demonstrará a sua completa inocência”. Os advogados de Marco Agassiz e Johnny Wesley não foram localizados para comentar as denúncias.

Dos médicos citados acima, todos foram presos em 1º/9. No dia seguinte, foram libertados Leandro Pretto Flores, Rogério Damasceno e Henry Campos. Johnny Wesley e Marco de Agassiz continuam detidos.

 

 

COMENTE

comunicar erro à redação