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A precariedade dos hospitais públicos locais muitas vezes provoca o acirramento dos ânimos devido a casos como demanda acima da capacidade, longas filas, falta de leitos e de condições adequadas tanto para pacientes quanto para os profissionais. Um episódio ocorrido no Hospital Regional de Taguatinga (HRT) no último dia 22 ilustra essa realidade. De um lado, parentes de um homem que havia sofrido acidente vascular cerebral (AVC) acusavam um médico de negligência. Do outro lado, o profissional pedia para que a família liberasse o consultório a fim de que outros pacientes em estado grave pudessem ser atendidos. A confusão foi registrada em vídeo.

No centro da discussão, estava o auxiliar de obras Valdemar Cândido da Silva, 53 anos, levado ao HRT após ter sofrido um AVC na manhã de 22 de setembro. No local, ele foi atendido, medicado e submetido a exames. Valdemar aguardou por cinco horas até receber os resultados, que constataram o AVC, e foi acomodado — de forma inadequada — nos corredores da unidade de saúde, pois não havia leitos disponíveis nos quartos. E foi durante a espera de cinco horas que os problemas ocorreram.

A irmã do paciente, Vilma Ursulina, 48 anos, relata que, após o atendimento inicial, Valdemar fez os exames e recebeu a classificação laranja (urgente). Um servidor, ao ver a condição do auxiliar de obras, sugeriu que a família o acomodasse em um dos consultórios. Deitado em uma maca, ele teria um pouco mais de conforto enquanto aguardava o resultado dos exames.

Pouco mais de uma hora depois, um médico que estava de plantão pediu para que a família desocupasse o local. “Ele afirmou que havia mais 20 pacientes em estado grave para atender. Falei da situação do meu irmão, disse que estávamos esperando alguns resultados e que ele estava muito fraco. Ele disse que, com aquela situação, não atenderia mais ninguém, saiu e bateu a porta”, contou Vilma.

Na gravação, é possível ouvir o médico dizendo: “Enquanto a senhora não sair, não haverá outros atendimentos”.

Veja o vídeo:

 

Diante da confusão, Valdemar começou a passar mal e desmaiou novamente. “Gritei por ajuda nos corredores e ninguém apareceu. No desespero, cheguei a ligar para a polícia, mas ela também não veio. Cheguei a pensar que eu teria que sentar e esperar ele morrer, já que até mesmo o hospital me negou socorro. Eu iria fazer o quê? Colocar meu irmão nas costas e levar para onde?”, desabafou.

Duas horas depois, Valdemar foi atendido por outro médico, que constatou o AVC. Ele precisou ser internado às pressas, mas o hospital não tinha vaga em nenhum dos quartos. Vilma, então, percorreu os corredores e encontrou uma maca, que, segundo ela, estava suja de sangue. “Coloquei uns panos que eu havia levado e, com a ajuda da minha filha, o colocamos na maca, onde ele ficou por quatro dias”, disse Vilma.

O irmão dela voltou para casa no domingo, por iniciativa de Vilma. “O local era muito sujo, a água do banheiro era gelada demais. Fiquei com medo dele pegar outras doenças”, contou.

Veja vídeo de Valdemar no corredor do HRT

 

Vilma acrescentou que Valdemar já havia sofrido um AVC em dezembro de 2015 e teve graves sequelas: a fala e os movimentos de parte do corpo ficaram comprometidos. Desde então, ele faz fisioterapia na Policlínica de Taguatinga. Foi justamente durante uma sessão de exercícios que o homem passou mal e desmaiou, no último dia 22, antes de ser levado ao HRT.

Nota da secretaria
Questionada sobre o caso, a Secretaria de Saúde informou que “o paciente foi admitido na unidade na última quarta-feira (22), quando, após avaliação médica, foi internado e recebeu toda a assistência necessária. Ele foi medicado e passou por exames até a segunda-feira (26). De acordo com a chefia de equipe, na segunda (26), no horário da visita médica, foi percebida a evasão do paciente”.

Ainda de acordo com a pasta, “a direção do hospital frisa que não houve negligência médica no atendimento”.

 

 

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