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Muita gente nem imagina, mas a saúde bucal de idosos, pessoas com deficiência e portadores de algumas síndromes requer cuidados especiais. Quem tem Parkinson, por exemplo, precisa ser imobilizado para que não corra riscos de se acidentar durante uma sessão com um dentista. Autistas, antes de passarem por tratamentos bucais, por sua vez, têm de criar uma relação de confiança com o profissional para garantir que a prevenção odontológica não se transforme em um grande problema.

Ao divulgar e explicar a importância desses cuidados específicos durante os últimos 13 anos, o dentista Alexandre Miranda se tornou referência no Distrito Federal. “Nossa luta é mostrar para a sociedade que esse trabalho existe e é necessário”, explica. O dentista atende muitos pacientes especiais, com síndrome de Down, deficiência intelectual, idosos, entre outros.

Um desses pacientes é Álvaro Leite, 36 anos, que nasceu com paralisia cerebral e faz tratamentos com Alexandre há cerca de sete anos. Ele não anda, não fala direito e quase não tem coordenação motora. Apesar das dificuldades, no entanto, não falta comunicação entre profissional e paciente. Durante a consulta, eles conversam, sorriem, contam piadas e até provocam um ao outro. Sobre a qualidade do atendimento do especialista, Álvaro afirma que é muito bom, mas não perde a piada. “Na verdade, o doutor Alexandre é um porcaria”, brinca.

Preparação
A mãe de Álvaro, Cândida Leite, 63 anos, conta que, antes de encontrar o médico atual, não foi fácil conseguir um dentista para tratar o filho. “Tivemos muita dificuldade em encontrar alguém disposto a atendê-lo. Fomos recusados em diversos consultórios que não se sentiam preparados para cuidar dele. Quando viam que era um paciente especial, muitos queriam apenas dopar o meu filho e arrancar os dentes. Como mãe, dói muito quando nosso filho é rejeitado”, conta.

A falta de preparação é, segundo Alexandre, um dos principais motivos para o baixo número de profissionais que sabe lidar com pacientes especiais. “No DF, há poucos cursos de especialização para essa área e, durante a graduação, o tema é quase ignorado. Os odontologistas precisam sair da capital para se capacitarem e poucos têm interesse”, explica.

O entusiasmo do médico por esse tipo de paciente floresceu ainda na faculdade, após a apresentação de um trabalho sobre odontologia para pessoas com síndrome de Down. Após a graduação, Alexandre quis se aprofundar no tema e fez especializações na Universidade de Brasília (UnB) e na Universidade de Campinas (Unicamp), além de cursos em outras instituições.

Rafaela Felicciano/Metrópoles

O paciente Álvaro Leite e sua mãe, Cândida Leite

Hoje, Álvaro e sua mãe afirmam ser provas vivas de que o esforço valeu a pena. “A confiança dele no dentista é muito grande, a gente se sente em casa. Quando o médico transmite medo, o paciente fica mais assustado ainda. Mas aqui, é tudo muito tranquilo. O pior é que muitos desconhecem esse tipo de atendimento existe”, diz Cândida.

“O nosso objetivo é oferecer um tratamento humanizado e digno, com responsabilidade ética para os pacientes. Os grupos de pessoas com necessidades especiais costumam ser marginalizados de atenção digna e capacitada, pela falta de profissionais preparados e pela falta de conhecimento desse tipo de serviço por familiares. É isso que pretendemos mudar”"
Alexandre Miranda, dentista especializado em grupos com necessidades especiais

Rede pública
A rede pública de saúde do DF oferece atendimento odontológico para pacientes com necessidades especiais. Para ter acesso aos serviços, os interessados devem procurar uma unidade básica de saúde do DF, que, em caso de necessidade, encaminha os pacientes para um dos 10 Centros de Especialidades Odontológicas (CEOs) da capital federal.

Segundo a Secretaria de Saúde do DF, uma média de 900 a 1,2 mil pacientes com necessidades especiais são atendidos por mês nos CEOs. O tempo médio de espera desses pacientes por atendimento depende da demanda da região onde se encontram. A secretaria afirma, no entanto, “está entre os grupos com maior taxa de atendimento e rapidez na realização de consultas iniciais e no desenvolvimento do tratamento em si. Tal como ocorre com os idosos na rede.”

A Universidade Católica de Brasília também oferece atendimento odontológico a pacientes com necessidades especiais. Para participar do programa, é preciso se inscrever em uma lista de espera e aguardar o chamado. As atividades no local, inclusive, são coordenadas pelo médico e professor Alexandre Miranda.

 

 

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