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No depoimento que o empresário Afonso Assad, presidente da Associação Brasiliense de Construtores, prestou ao Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) há cerca de um mês, ele afirma que um emissário da Câmara Legislativa o procurou para cobrar propina. Segundo Assad, essa pessoa falava em nome de deputados distritais. Testemunhas do caso ouvidas pelo Metrópoles revelaram a suposta identidade do homem que seria o responsável por pedir a propina destinada aos parlamentares. Trata-se de Alexandre Braga Cerqueira (foto), secretário executivo da Terceira Secretaria da Casa, indicado por Bispo Renato (PR).

Facebook/Reprodução

Cerqueira, que recebe R$ 17 mil mensais na CLDF, é funcionário da Casa há 20 anos e tem ligações com o ex-distrital Aylton Gomes, réu na Operação Caixa de Pandora. Mas hoje, responde a Bispo Renato. O distrital evangélico é um dos citados nos grampos de Liliane Roriz (PTB) por envolvimento num suposto esquema de cobrança de propina em contratos da saúde do DF. Cerqueira seria justamente o responsável por “coletar” esses recursos.

Dívidas de campanha e almoço na churrascaria
Além da propina, a verba destinada pelos deputados distritais para a saúde seria desviada para o pagamento de dívidas de campanha. Quem garante é o defensor público André de Moura. Ele acompanhou seis dos oito depoimentos das testemunhas que relataram a promotores a denúncia gravada pela deputada Liliane Roriz (PTB) em escutas clandestinas. Moura afirma ainda que o esquema funcionaria exatamente nos moldes como pode se inferir dos áudios divulgados desde quarta-feira (17).

Em um desses áudios, o ex-secretário-geral da CLDF Valério Neves afirma que Renato Andrade e Júlio César (PRB), líder do governo na Casa, teriam tentado fazer uma negociação com Afonso Assad. De acordo com o que Neves diz em um dos áudios, o empresário poderia intermediar contratos com a Secretaria de Educação. Mas Assad não teria levado a cabo o “compromisso”. “O Afonso disse que não poderia garantir nada”, diz Valério Neves em um dos trechos.

Segundo Moura, a história contada por Valério Neves é confirmada no depoimento de Assad. Os dois parlamentares, integrantes da bancada evangélica na Câmara Legislativa, teriam procurado o empresário para um almoço. O encontro ocorreu em dezembro de 2015, em uma churrascaria, e, na ocasião, teriam convidado o empresário para entrar no esquema. “Queriam que o Afonso desse uma contribuição para eles pagarem dívidas de campanha”, garante o defensor.

Ainda conforme o relato de Assad ao MPDFT e ao Ministério Público de Contas do DF (MPC-DF), os distritais destinariam R$ 15 milhões para a Educação e outros R$ 15 milhões para a Saúde. “Eles não falaram como seria feita a divisão (no caso de propina), mas o Afonso disse que não pagaria, pois não trabalha com isso, prefere dormir de cabeça tranquila”, completa André de Moura.

A associação de Afonso representa pelo menos 30 empresas que fazem reparos em escolas e hospitais, como a troca de lâmpadas e outros detalhes. Com a negativa de Assad, os distritais teriam decidido destinar quase a totalidade das emendas à Saúde. Apenas R$ 1 milhão ficou para a Educação. “Como esse valor foi para as obras da associação, um emissário procurou o Afonso para cobrar (a propina), mas ele negou mais uma vez, alegando que trabalha de forma séria”, disse o representante da Defensoria Pública do DF. Esse interlocutor seria justamente Alexandre Braga Cerqueira.

O depoimento de Afonso Assad aos promotores ocorreu há cerca de um mês, assim como os das outras testemunhas, incluindo Liliane Roriz e servidores da Câmara Legislativa. “Todas trazem indícios fortes de que a história que Valério (Neves) narrou é verdade”, comenta André de Moura.

Depoimento de servidor
Segundo o depoimento de um funcionário da Casa ao Ministério Público do DF, logo após o almoço na churrascaria, os parlamentares, com a ajuda de Cristiano Araújo (PSD), teriam pressionado os servidores da chamada “mesinha” para mudar a destinação da emenda. Com a recusa de Assad, a intenção era colocar os R$ 30 milhões para a saúde, onde já haveria um “esquema” garantido. “De 20 em 20 minutos, eles perguntavam se a emenda estava pronta”, teria dito o servidor ao MPDFT.

Outro lado
O deputado Júlio César (PRB) afirmou que só vai se pronunciar sobre o caso quando tiver acesso ao processo. No momento, ele disse desconhecer as informações. O deputado Bispo Renato Andrade (PR) refutou todas as denúncias, afirmou que Alexandre é servidor da Casa há 20 anos e que se alguém falou por ele, em qualquer negociação, mentiu. “Não tenho qualquer relação com essa emenda. A emenda era da deputada Liliane Roriz (PTB), nem poderia tratar sobre isso com ninguém. Almocei, sim, com o Afonso, assim como almoço com representantes do setor produtivo. Sou presidente da Frente Parlamentar em Defesa do Setor Produtivo, é meu trabalho”, afirmou.

Para o Bispo Renato, toda a história faz parte de uma armação para prejudicar a Mesa Diretora da Casa, e todas as afirmações serão refutadas no momento oportuno. “Apresentaremos aquilo que de fato é verdade. Todo mundo vai ficar de queixo caído quando, no momento certo, isso vier à tona. A armação do grupo deu errado”, disse.

A reportagem tentou falar com Alexandre Braga Cerqueira em três telefones celulares e um fixo, mas ele não atendeu nem retornou os contatos até a publicação desta reportagem. Por meio de um interlocutor, Afonso Assad disse que não quer comentar o caso.

 

 

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