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Alvo da terceira fase da Operação Drácon, o servidor da Câmara Legislativa Sandro Vieira negou que tenha destruído ou retirado documentos das dependências da Casa em 22 de agosto, um dia antes da primeira etapa da investigação. Em entrevista exclusiva ao Metrópoles (ouça áudio abaixo), Vieira dá sua versão para as suspeitas de queima de arquivo apontadas pelo MP nesta segunda-feira (17/10). Braço direito da presidente afastada da Câmara Celina Leão, ele coloca outro personagem no centro do caso: um servidor identificado apenas como Joel, que aparece com uma caixa nas mãos, deixando a sala onde Vieira estava, conforme mostram as filmagens do circuito interno da Câmara apreendidas pelos investigadores.

Sandro Vieira contesta o MPDFT, que estranhou o fato de o servidor estar na CLDF às 6h do dia 22 de agosto, uma segunda-feira. Na ocasião, segundo imagens divulgadas nesta segunda (17), uma pessoa retira uma caixa da sala onde Vieira estava. O Ministério Público desconfia de que se trate de destruição de provas. Vieira nega irregularidades e argumenta que chegou cedo “para não pegar trânsito”, como costuma fazer em dias nos quais há algum “fato importante”.

“A minha função de secretário legislativo era preparar a pauta e conduzir a sessão. Naquele dia, teria a eleição de vice-presidência da Câmara, por isso cheguei mais cedo”, relatou ao Metrópoles. A vaga era para o posto de Liliane Roriz (PTB), que havia renunciado ao cargo na semana anterior, logo após os áudios em que ela grampeou Celina e o então secretário-geral da Casa, Valério Neves, virem a público.

Confira o áudio de Sandro Vieira:

Embora Sandro negue que tenha tentado obstruir o trabalho dos investigadores, o MP suspeita de uma organização criminosa articulada para retirar provas do suposto esquema de corrupção na Câmara. Distritais e outros servidores da Casa podem ter participado da trama, de acordo com o Ministério Público. A operação que expôs Sandro Vieira ocorreu um dia antes do julgamento que pode manter ou não Celina Leão afastada da presidência da Câmara Legislativa.

“Culpa do Joel”
Obrigado a depor pela Justiça, Vieira contou que, nesta segunda (17), foi questionado pelos promotores sobre a pessoa que aparece entrando na sala em que ele estava e, pouco tempo depois, sai com uma caixa. “Confirmei que se trata de um servidor de carreira, concursado. O nome dele é Joel, mas não sei o sobrenome. Ele chega cedo, pois tem a função de tirar xerox e preparar documentos que são deixados no dia anterior. Ele faz essa distribuição. É um servidor que realmente chega muito cedo na Câmara”, disse Sandro Vieira.

Ainda no áudio enviado à reportagem, Vieira afirma que, para comprovar a versão, “basta chamar o Joel e conversar com ele”. “É um servidor sério e é claro que não vai participar de nenhuma armação.” De acordo com Sandro Vieira, Joel deixou a sala “na verdade com a tampa de uma caixa aberta, não estava nem fechada”. Ele é uma espécie de office-boy na Secretaria Legislativa, onde Vieira atuava.

Além de Joel, nas imagens divulgadas pelo MPDFT nesta segunda (17) aparece outro funcionário, um homem cujo apelido é “Safadão”, porque tem cabelos longos como o cantor Wesley Safadão. No entanto, Vieira não falou sobre o que este servidor fazia na ocasião. De acordo com informações apuradas pelo Metrópoles, “Safadão” é Antônio Alexandre, que trabalha na limpeza do quinto andar da Casa. Ele tem problemas mentais e de locomoção na perna.

Até o fim da noite desta segunda (17), não havia confirmação oficial sobre os nomes completos nem os cargos funcionais dos dois homens que aparecem nas imagens abaixo. Em outros registros, entretanto, é possível ver Sandro Vieira e Alexandre Cerqueira, ex-assessor da Casa ligado ao deputado Bispo Renato (PR), e que também foi alvo da terceira fase da Drácon.

MPDFT/Divulgação

Funcionários da CLDF com caixas na mão filmados em 22 de agosto, que seriam “Safadão” e Joel

 

Busca e apreensão
Na entrevista que deu ao Metrópoles, Vieira contou ainda que estava em sua chácara no Pedregal, Entorno do DF, quando atendeu aos promotores nesta segunda-feira (17).

“O Ministério Público foi cumprir o mandado de busca e apreensão em minha casa, em Águas Claras, só que eu estava na chácara onde passo os finais de semana. Os promotores não tinham mandado para a chácara, mas pedi a eles que fizessem a busca lá para evitar qualquer questionamento. Concluíram os procedimentos e não encontraram computador ou documentos da Câmara. Levaram apenas meu celular”, disse.

Exoneração e nova nomeação
Sandro Vieira ocupava o cargo de secretário legislativo na Câmara, mas foi exonerado, a pedido, em 30 de agosto, depois da Drácon. Com salário de R$ 12 mil, o servidor do Superior Tribunal de Justiça (STJ) cedido à CLDF foi nomeado para um cargo de menor expressão, de assessor, com vencimentos de R$ 6.666,22. Hoje, Vieira é assessor do Bloco Popular Solidário Social, comandado por Celina Leão.

“Eu pedi exoneração por dois motivos. Primeiro, porque a Celina tinha saído da presidência e eu não queria estar lá. Poderiam dizer que eu estava atrapalhando a investigação. Segundo, porque estou movendo uma ação contra o deputado Chico Vigilante (PT) por difamação e calúnia. Por isso fui para o gabinete, onde aceitei um cargo de assessor, menor que o cargo de secretário legislativo”, explicou.

Assessor do bloco comandado por Celina, Sandro Vieira ingressou com uma queixa-crime contra Chico Vigilante porque foi o petista que denunciou o servidor, no dia da Operação Drácon. Segundo Vigilante, ele foi procurado por um funcionário que contou ter visto Vieira levando um computador da Casa. Sandro Vieira, no entanto, nega que tenha tirado equipamentos eletrônicos das dependências da Casa.

Não é a primeira vez que Vieira mantém relações próximas a parlamentares da Casa. Ele já foi fiel escudeiro da hoje ex-deputada Eurides Brito, que acabou alijada da carreira política após ser filmada por Durval Barbosa, delator da Caixa de Pandora, enfiando maços de dinheiro fruto de corrupção na bolsa. Em 2005, na CPI da Educação, Sandro Vieira chegou a ser indiciado por sonegação fiscal e crimes contra a ordem tributária. (Colaborou Suzano Almeida)

 

 

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