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No dia 24 de agosto, Manoel Carneiro de Mendonça Neto teve de reservar a parte da tarde para um compromisso na Justiça. Foi intimado a esclarecer por que evitou abrir licitações na contratação de serviços e eventos para atender à Administração de Águas Claras, de onde foi chefe entre 2011 e 2012. Em um dos casos mais rumorosos à época — justamente o que lhe custou o cargo —, Carneiro foi acusado de integrar um esquema que desviou R$ 1 milhão na compra de gibis. Ele era apadrinhado do então distrital Olair Francisco, que acabou não disputando a reeleição em 2014.

Cinco anos depois de perder o comando de Águas Claras, o nome de Manoel Carneiro emerge mais uma vez na superfície onde boiam encrencas distritais. Tornou-se testemunha-chave no caso em que a deputada distrital Sandra Faraj (SD) é acusada de desviar verba indenizatória da Câmara Legislativa. No dia 21 de agosto, ela foi absolvida pela Comissão de Ética e Decoro Parlamentar. Julgamento político sem surpresas, alinhado com a natureza corporativa de uma Casa onde todos se protegem. O destino da parlamentar agora está nas mãos do Ministério Público e da Justiça.

O que torna esse caso peculiar é a relação de confiança que existia entre os dois. Manoel Carneiro era o chefe de gabinete de Sandra, mas virou algoz dela no episódio da verba indenizatória. A história fica ainda mais enredada pois não foi a primeira vez que um distrital caiu em desgraça pelas mãos de Carneiro. Há mais de uma década, Eurides Brito experimentou um tipo muito parecido de traição política.

E o componente derradeiro para essa trama de pactos e perfídias é o mistério sobre as reais intenções de seu personagem central. De um lado, o assessor número 1 de distritais testemunha supostos malfeitos com a propriedade de quem conhece as entranhas dos gabinetes. Do outro, a sua própria história deixa margem para dúvidas sobre o que articula. No dia 22 de agosto deste ano, Manoel Carneiro, que é professor de educação física, se aposentou da Secretaria de Educação do DF por invalidez, três anos antes do prazo regulamentar de contribuição. O comunicado está na página 35 do Diário Oficial do Distrito Federal (DODF) número 161.

DODF/Reprodução

 

“Incapacidade laborativa”
Em documento emitido pela Secretaria de Planejamento do DF ao qual o Metrópoles teve acesso, consta que Carneiro se desligou do serviço público por “incapacidade laborativa total e permanente, decorrente de transtorno depressivo, CID 10:F-32.3”.

Reprodução

 

Segundo a Organização Mundial de Saúde, o CID-10 corresponde a pacientes com “episódios depressivos graves, acompanhados de alucinações, ideias delirantes, lentidão psicomotora ou de estupor de uma gravidade tal que todas as atividades sociais normais tornam-se impossíveis. Pode existir o risco de morrer por suicídio, de desidratação ou desnutrição”.

Tamanho grau de comprometimento incapacitou totalmente Manoel Carneiro para o serviço público, mas não para a atividade política nem para os estudos. Ele integra a campanha de Alírio Neto (PTB), nome com potencial que se apresenta para a próxima disputa ao Palácio do Buriti.

O papel de Carneiro é nada menos do que elaborar a minuta do plano de governo do pré-candidato. Frequentemente, participa de reuniões na sede do partido em Brasília. E tem um contato próximo com figurões da legenda.

O nome do professor, agora na inativa, está entre os 23 inscritos em grupo de WhatsApp criado especialmente para tratar das questões de campanha. Nos contatos do administrador do grupo “Alírio Núcleo de Trabalho”, a foto de Manoel aparece ao lado da denominação: “PTB Manoel Carneiro Marketeiro”.

WhatsApp/Reprodução

 

Desavenças com assessor de Alírio
A aproximação de Alírio e Manoel Carneiro foi, inclusive, um dos motivos que afastaram o antigo aliado e ex-assessor Lucas Kontoyanis do pré-candidato. Ele não concordava com a presença do novo colaborador no grupo, posicionamento que chegou a externar para alguns de seus interlocutores. Na primeira semana de agosto, Kontoyanis enviou simpática mensagem de despedida em que aborda divergências com Alírio para justificar seu afastamento.

A ligação de Manoel Carneiro com o partido não se restringe aos representantes da legenda em esfera distrital. Ele também mantém contato próximo com figurões do PTB. Já recebeu o presidente nacional da legenda, Roberto Jefferson, no restaurante Peixe na Rede do ParkShopping, um dos estabelecimentos que tem como sócio seu filho José Carlos Carneiro de Mendonça Neto.

A despeito de sua grave doença, em março deste ano, Manoel Carneiro conquistou o título de doutor em administração pública pela Atenas College University, mérito que exibiu nas redes sociais. Os diplomas ajudam a melhorar a remuneração no serviço público.

Facebook/Reprodução

 

Atestados médicos em série
Na contramão de sua lucidez política e acadêmica, em novembro do ano passado, Manoel Carneiro começou a apresentar sistematicamente atestados para se ausentar do trabalho por motivo de depressão. Cedido da Secretaria de Educação e então chefe de gabinete da deputada distrital Sandra Faraj, o professor entregou três comprovantes de sua incapacidade laboral entre os períodos de outubro de 2016 até fevereiro de 2017.

Enquanto expunha oficialmente sua convalescença, trabalhava nos bastidores para denunciar supostas irregularidades no gabinete da parlamentar e abater aquela que passou de aliada a inimiga.

O rumoroso episódio do uso irregular de verba indenizatória denunciado pelos donos da Netpub não foi o único evento que colocou Manoel Carneiro em lado oposto ao de um deputado de quem era braço direito. Em 2002, foi ele o tesoureiro da campanha de Eurides Brito. Colegas de profissão, os dois tornaram-se muito próximos e, após a eleição vitoriosa, ela o nomeou chefe de gabinete.

Denúncia na CPI da Educação
A parceria não durou até o fim do mandato. Antes disso, Manoel Carneiro denunciou a parlamentar na CPI da Educação. Ele chegou a apresentar áudios que sustentariam sua versão segundo a qual a política direcionava licitações na época em que era secretária de Educação do DF, durante a gestão do ex-governador Joaquim Roriz.

Antes de atuarem juntos no Legislativo, Carneiro tinha sido subsecretário de Suporte Educacional da pasta comandada por Eurides. A intimidade com o sistema lhe credenciou para apontar irregularidades nos contratos de licitação da secretaria com empresas de transporte escolar. O então gestor armou um flagrante para mostrar que as concorrências eram direcionadas à empresa Moura Transportes ou à Jovem Turismo.

Em conversa gravada com o ex-gerente da agência de turismo Carlos Alberto de Oliveira, Manoel Carneiro perguntou se Eurides Brito estaria recebendo propina para fraudar a licitação. Ele respondeu que teria repassado dinheiro, sim.

Em 2005, os distritais João de Deus e Ivelise Longhi questionaram como o coordenador-geral da campanha da deputada em 2002 não tinha conhecimento de um suposto caixa dois que ele mesmo denunciou em 2003. Além disso, apresentaram documentos mostrando que, de 1995 até aquele ano, Manoel Carneiro teria passado 1.572 dias sem trabalhar. As ausências eram justificadas com atestados médicos por distúrbios psicológicos, mas que nunca o escantearam da cena política. Ele, aliás, é tido como um sagaz estrategista.

De Eurides a Sandra
Mais de uma década depois, ao lado de Sandra Faraj, Manoel Carneiro também assumiu um papel de destaque no inferno astral da deputada. Sistema de monitoramento da Câmara Legislativa flagrou o momento em que o então funcionário, no dia 8 de outubro de 2016 (um sábado), levou chaveiro até a Casa para conseguir entrar no gabinete da parlamentar. Pretendia colher provas das denúncias que surgiriam em abril deste ano, mas que já estavam registradas em cartório desde fevereiro.

Tanto em 2005 quanto em 2017, as deputadas expostas por Carneiro voltaram sua ira contra ele. Eurides Brito acusou o ex-assessor de ser o autor do esquema de corrupção e chegou a chamá-lo de “mentiroso” e “ladrão”. A parlamentar foi processada e condenada a pagar indenização por danos morais no valor de R$ 10 mil. Sandra alega que as denúncias testemunhadas por Manoel fazem parte de uma conspiração do ex-funcionário demitido por ela depois que apresentou sucessivos atestados de afastamento por transtornos psicológicos.

No meio do caminho entre as duas pelejas no Legislativo, Carneiro foi testado como gestor na condição de administrador de Águas Claras. Seu padrinho à época, Olair Francisco sumiu da cena política ao não se candidatar à reeleição, dois anos depois do escândalo dos gibis, que teve como personagem central justamente Manoel Carneiro.

Tanto Olair quanto Sandra Faraj perderam uma campanha antes de se elegerem deputados. Coincidência ou não, na segunda tentativa, já com a ajuda de Carneiro, multiplicaram votos e foram eleitos. Amigos e adversários do ex-professor de educação física avaliam que ele sabe jogar, é vaidoso e, quando entra em campo, só pensa em ganhar.

Mas foi justamente uma bola dividida com Sandra que colocou os dois em times opostos. Ele a ajudou na campanha e depois da eleição agiu de acordo com sua personalidade política. Foi cada vez mais tomando espaços de poder para si. Com muito domínio no gabinete, chegou um ponto em que Manoel Carneiro estendeu sua força para além do Legislativo. Conseguiu emplacar a nomeação de seu filho José Carlos no cargo de adjunto da Secretaria de Justiça e Cidadania (Sejus), pasta sob influência de Sandra Faraj à época.

Exoneração
José Carlos, na ocasião, era policial militar e acabou pedindo baixa na corporação para assumir o cargo, onde ficou por apenas seis meses. Depois desse período, foi demitido, já como resultado de desentendimentos entre Sandra e Manoel Carneiro. A exoneração foi o gatilho para o início de uma briga vigorosa.

O ex-chefe de gabinete de Sandra não se conformou com a decisão da distrital em cortar o filho dele da Secretaria de Justiça. Carneiro chegou a vociferar para pessoas próximas que seu maior objetivo dali em diante seria cassar o mandato dela. Embora não tenha sido ele o autor primário das denúncias que comprometeram a deputada recentemente, não poupou forças para abater a ex-chefe.

Tratamento psiquiátrico
Procurado pelo Metrópoles, Manoel Carneiro falou sobre sua aposentadoria por invalidez. Ele disse que a depressão é muito grave e o impede de voltar para a sala de aula: “Tenho tomado remédios, feito tratamento com psiquiatra e espero um dia me livrar dessa doença”.

Disse que não foi ele quem pediu baixa do serviço público, mas acabou aposentado por uma junta médica. A avaliação ocorreu após ele apresentar atestados recorrentes por mais de dois anos.

Manoel Carneiro negou participar da pré-campanha de Alírio Neto. “Sou amigo dele e simpatizante de sua trajetória política. Espero contribuir se tiver condições futuras, não vou ficar para sempre na cama.” O próprio pré-candidato, no entanto, confirmou ao Metrópoles que Manoel Carneiro é um dos correligionários com atuação em sua pré-campanha.

Ele integra o grupo de trabalho que elabora a minuta do meu plano de governo e participa de reuniões na sede do partido"
Alírio Neto

Alírio disse ainda que não sabia da condição de saúde de seu colaborador. “Não tinha a menor ideia que ele estava aposentado, muito menos que era por depressão severa”, afirmou. Procurada pela reportagem, a Secretaria de Educação respondeu que não se manifesta sobre questões funcionais de seus servidores.

 

 

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