*
 

As imagens do circuito interno de segurança da Câmara Legislativa, segundo o Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT), são fortes indícios de que provas importantes foram retiradas da Câmara Legislativa antes da deflagração da Operação Drácon. O fato é tão grave que levou o MP a pedir a prisão de Alexandre Cerqueira, ex-assessor da Casa ligado ao deputado Bispo Renato (PR). A Justiça negou o pedido de prisão e autorizou a condução coercitiva dele (quando a pessoa é obrigada a depor).

A possível participação de parlamentares e de outros servidores na obstrução de provas também é investigada pelos promotores. Eles suspeitam de associação criminosa para impedir as investigações desencadeadas pelo MP, com o apoio da Polícia Civil, no âmbito da Drácon.

Facebook/Reprodução

Alexandre Cerqueira foi conduzido coercitivamente para prestar depoimento

Alexandre e Sandro Vieira, ligado à deputada Celina Leão (PPS), são alvos da terceira fase da Drácon, deflagrada nesta segunda-feira (17/10). De acordo com o MP, ambos foram flagrados pelas câmeras da Casa entre 17, dia em que as denúncias vieram à tona com a divulgação dos áudios pela deputada distrital Liliane Roriz (PTB), e 23 de agosto, data em que foi deflagrada a Drácon.

Alexandre entrou às 10h30 do dia 20, um sábado, quando a Câmara não tem expediente, e saiu de lá com documentos e uma bolsa semelhante às usadas para guardar notebook. Sandro foi na segunda, dia 22, às 6h, fora do horário normal de trabalho e véspera da operação. Ele também levou documentos.

Além de conduções coercitivas, o MP cumpriu nesta segunda mandados de busca em Águas Claras e no Jardim Botânico. Alexandre prestou depoimento pela manhã e disse que os documentos que retirou da Câmara são dele e não provas sobre o suposto esquema de corrupção na Câmara Legislativa. Sandro ainda não foi ouvido.

O MP quer saber agora o que os ex-assessores levaram e a mando de quem. Sob a ótica dos promotores que atuam no caso, em função da nova fase, é necessária a manutenção da cautelar para que a Mesa Diretora continue afastada do comando da Casa. Celina e Raimundo Ribeiro, ambos do PPS, tentam retornar aos seus postos. Um recurso de ambos será julgado nesta terça-feira pela Justiça do DF (18).

“Vamos levar ao conhecimento do tribunal (os fatos apurados na nova fase da Drácon)”, disse o promotor Clayton Germano, do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do MPDFT, que comanda as investigações e deu coletiva nesta manhã. De acordo com ele, desde o primeiro momento, o MP tinha a certeza do envolvimento de Alexandre Cerqueira com o esquema.

Michael Melo/Metrópoles

Clayton Germano

Ele foi inclusive citado pelo empresário Afonso Assad, considerado uma das testemunhas-chave da operação que investiga suposto esquema de corrupção na Câmara Legislativa envolvendo emendas da saúde, nos áudios divulgados por Liliane Roriz. Ao MPDFT, o empresário afirmou que foi abordado por Alexandre, que cobrou propina.

De acordo com o promotor, a Câmara chegou a informar que não havia imagens dos dois assessores. “Isso foi na gestão anterior e pode ter influenciado (nas investigações). Antes da primeira busca, tinha-se notícia de subtração de provas. Talvez a Câmara não tenha tido o cuidado que a perícia teve de analisar imagem por imagem”, ressaltou Clayton Germano. O fato levanta suspeitas do envolvimento de distritais na obstrução de provas e não descarta a participação de outros servidores.

As imagens obtidas pelo Ministério Público também registraram o momento em que outras duas pessoas, que ainda não foram identificadas oficialmente, circulam entre os gabinetes carregando caixas e arquivos. A dupla foi flagrada no mesmo dia em que Sandro foi à CLDF, em 22 de agosto, entre 7h13 e 7h16.

Um dos que aparecem nessas imagens seria um rapaz identificado a princípio como Joel, que entra todos os dias na Câmara entre as 6h e 7h. Ele é servidor de carreira e trabalha como office-boy.  O outro seria um homem cujo apelido é “Safadão”, porque tem cabelos longos como o forrozeiro Wesley Safadão.

Entre os crimes que estão sendo investigados no âmbito da Drácon, estão corrupção ativa e passiva. “Tivemos prova material de que documentos foram retirados da Câmara. Foram analisados oito terabytes de imagem, por isso demoramos para deflagrar essa fase”, assinalou o promotor. Segundo ele, não há edição nos áudios de Liliane.

Emissário
Ex-secretário-executivo da Terceira Secretaria da Câmara Legislativa, Alexandre Cerqueira é apontado como um dos principais personagens do suposto esquema na Câmara. E, conforme mostrou o Metrópoles, mantinha uma rotina empresarial ativa, além de suas atribuições na Câmara.

Ele já havia sido proprietário de um lava jato, é sócio de uma lotérica no Jardim Botânico, alvo da Drácon nesta terceira fase, e de uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip), chamada Associação Escola da Família (AEF). Porém, no endereço de registro da entidade, em Planaltina, funciona uma igreja evangélica.

Nota
Em nota, o deputado Bispo Renato disse não ter conhecimento de nenhum ato ilícito envolvendo Alexandre Cerqueira. “O distrital reafirma sua inocência e reitera que as acusações contra ele são infundadas. O esclarecimento dos fatos é necessário e se dará no momento certo. Bispo Renato Andrade está concentrado em sua defesa e à disposição da Justiça.” Já a deputada Celina Leão ficou de se pronunciar esta tarde, por meio de coletiva à imprensa.

 

 

COMENTE

ImagensDráconDrácoterceira fase
comunicar erro à redação