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A investigação sobre a Operação Drácon e seus personagens centrais começa a definir conexões, no mínimo, suspeitas. A relação entre a deputada distrital Liliane Roriz (PTB) e uma das testemunhas-chaves do suposto esquema de pagamento de propina na Câmara Legislativa,  o empresário Afonso Assad, é uma delas. Todas as emendas da distrital previstas para este ano, num total de R$ 13 milhões, tiveram como destino apenas o pagamento de reformas nas escolas públicas, um dos principais ramos de atuação das empresas de construção de Assad.

De acordo com a Lei Orçamentária Anual (LOA), Liliane fez a previsão de suas emendas no exercício parlamentar de 2015 para serem aplicadas neste ano. Pelo menos R$ 4,5 milhões já foram empenhados em 2016. A distrital havia destinado entre R$ 1 milhão e R$ 3 milhões para obras de infraestrutura e urbanização em cidades como Gama, Paranoá, Ceilândia, Guará, Samambaia, Santa Maria, São Sebastião e Recanto das Emas.

A cidade do Paranoá, por exemplo, seria beneficiada com a quantia de R$ 3 milhões. Por sua vez, Ceilândia, a região administrativa mais populosa do DF, receberia, por meio de uma emenda da distrital, R$ 2 milhões, também para obras de infraestrutura e urbanização (confira documento abaixo). No entanto, ficaram sem nenhum centavo.

liliane

Já neste ano, Liliane Roriz determinou a alteração orçamentária das emendas e remanejou todo o valor para a conservação de escolas da rede pública. Uma das empresas beneficiadas é a Mevato Construções e Comércio, da qual Afonso Assad é procurador. A Mevato está registrada em nome de dois irmãos do empresário e recebeu R$ 356 mil por meio de uma das emendas da distrital. Outras duas empresas beneficiadas pertencem a integrantes da cúpula da Associação Brasiliense de Construtores (Asbraco), entidade que Assad preside.

Divulgação

De acordo com uma fonte policial ouvida pelo Metrópoles e que trabalhou na apuração da Operação Drácon, as informações estão sendo cruzadas e parte do trabalho identificou uma relação próxima de Liliane Roriz com interesses defendidos por Assad. “Realmente, chama a atenção a retirada de todas as emendas e a transferência delas exclusivamente para a empresas que são ligadas à Asbraco e ao Assad e que atuam na reforma de escolas públicas”, disse.

Outro lado
A reportagem procurou a deputada Liliane Roriz para falar sobre a transferência de todas suas emendas, antes distribuídas entre benfeitorias para diversas cidades e depois concentradas apenas na reforma de escolas. De acordo com a assessoria de imprensa da distrital, Liliane foi motivada por vários acontecimentos.

“O principal deles foram as denúncias de problemas nas obras executadas em várias administrações regionais”, destacou a nota. Além disso, Liliane afirmou, por meio de sua assessoria, que tomou a decisão de alterar as emendas após ouvir a demanda de diretores de regionais de ensino de algumas cidades e a partir de notícias divulgadas pela imprensa sobre a situação precária de dezenas de escolas no Distrito Federal.

Sinduscon/Divulgação

Afonso Assad: em depoimento, empresário disse que distritais pediram propina

 

A assessoria destacou ainda que, ao destinar emendas para reforma de escolas, Liliane está beneficiando a população como um todo. Por fim, ressaltou que cabe à Secretaria de Educação executar as obras. A reportagem tentou entrar em contato com Afonso Assad em três telefones diferentes, mas o empresário não atendeu à ligação em nenhum deles.

Procurada pela reportagem, a Secretaria de Educação afirmou que todos os contratos feitos com as empresas ligadas ao empresário Afonso Assad e outros integrantes da cúpula da Asbraco envolvem serviços de manutenção nas escolas. Segundo o subsecretário de Planejamento, Acompanhamento e Avaliação Educacional, Fábio Pereira de Sousa, os contratos foram feitos por meio de licitação. “Todos os processos foram firmados ainda em 2013, seguindo os trâmites regulares. Os serviços são acionados de acordo com as necessidades emergenciais de cada uma das escolas”, explicou.

Pagamento de propina
Nos grampos produzidos por Liliane contra os colegas da Câmara, Assad é citado como o empresário que deveria ser procurado para pagar a suposta propina em troca de emendas que favorecessem seu setor. Ele teria se negado a atender aos pedidos dos distritais. Virou uma das testemunhas-chaves na apuração feita por promotores e por policiais civis no âmbito da Drácon. A operação foi deflagrada em 23 de agosto e resultou no afastamento de toda a Mesa Diretora da Casa.

 

 

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