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Uma área criada em 2006 onde deveria haver 154 ipês no Jardim Botânico poderia passar despercebida pelos visitantes menos atentos. No entanto, uma placa revela a real finalidade do espaço, localizado próximo ao anfiteatro do parque: homenagear as pessoas que morreram na maior tragédia aérea do Brasil, o acidente envolvendo o jato Legacy e o Boeing 737 da Gol que fazia o voo 1907.

A homenagem foi idealizada pelo Ministério Público do DF e Territórios (MPDFT) e lançada oito meses após o acidente. À época, cada árvore foi plantada com as cinzas dos mortos e ganhou placas com a identificação de cada passageiro e tripulante. A cerimônia também contou com uma chuva de 100kg de pétalas de rosas. Nesta quinta-feira (29/9), passados 10 anos do desastre que fez 154 vítimas e deixou milhares de parentes devastados, o Metrópoles visitou o Jardim Botânico. A primeira impressão é de que a região está abandonada.

Pouco mais de uma centena de ipês conseguiu sobreviver. As placas de madeira com os nomes das vítimas estão no chão, quebradas e desbotadas. Entretanto, por trás do aparente descaso com a conservação do local há uma justificativa: a ideia nunca foi transformar a área em uma espécie de cemitério nem memorial fúnebre.

“A ideia era que as placas com os nomes se integrassem ao meio ambiente mesmo. Nossa intenção era que as pessoas fossem lembradas por meio do contato com a beleza da natureza. Nunca quisemos transformar esse espaço num pequeno cemitério com flores, fotos e outros elementos que normalmente se colocam em túmulos. O Jardim Botânico não tem essa função”, diz o diretor executivo do Jardim Botânico, Jeanitto Sebastião Gentilini.

“Quanto aos ipês, alguns cresceram, outros não. Isso é normal nos plantios que realizamos, porém se os familiares quiserem cada um adotar uma árvore, temos um termo de adoção de plantio, de forma que possamos trabalhar em parceria”, completou Gentilini.

 

Visita
Apesar de não ter a função de um cemitério, parentes das vítimas visitam o local, especialmente nos aniversários da tragédia aérea. Nesta quinta-feira (29), por exemplo, a reportagem encontrou um visitante no local. O homem que aparentava ter 50 anos e estava emocionado, não quis se identificar, mas contou que conhecia um dos mortos no desastre.

“Perdi um grande amigo nesse acidente. É muito doloroso lembrar de tudo o que aconteceu na época. Foi uma sucessão de erros, mas prefiro pensar que se trata de uma fatalidade”, lamentou, enquanto olhava rosas secas pela ação do tempo deixadas por outros visitantes.

O acidente
Às 14h51 daquele 29 de setembro de 2006, uma sexta-feira, o Legacy decolou de São José dos Campos (SP). O voo da Gol, por sua vez, saiu às 15h35 de Manaus. Às 15h55, ao passar por Brasília, o jatinho já viajava fora da sua rota, a 37 mil pés, e os radares indicavam a situação. Os controladores, porém, não perceberam. Daí para frente, o que se viu foi uma sequência de eventos que culminou na queda do avião.

Segundo as investigações, às 16h48, o Legacy tentou chamar os controladores de Brasília pelo rádio, sem sucesso. O copiloto Jan Paul Paladino não usava a frequência correta para a área. Pelas normas internacionais de aviação, nesse caso, o jatinho deveria ativar um código de perda de comunicação no transponder. Se isso tivesse sido feito, os pilotos descobririam que o equipamento anticolisão estava desligado.

Fora dos radares e sem o transponder, o Legacy ficou invisível. A 38 mil pés de altitude, às 16h56, tocou sua asa esquerda na asa da aeronave da Gol, destruindo um terço dela. O suficiente para que o avião entrasse em parafuso e desintegrasse antes de desabar no chão.
O transponder do Legacy é ligado apenas às 16h59, segundo as investigações. Às 17h22, com uma avaria na asa esquerda, o jatinho pousa com segurança em uma pista da Aeronáutica, na Serra do Cachimbo, no sul do Pará.

 

 

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