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A venda de roupas, bolsas, sapatos e aparelhos eletrônicos copiados de grifes famosas sempre foi a marca registrada da Feira dos Importados, no Setor de Indústria e Abastecimento (SIA). Apesar de irregulares, os produtos nunca ameaçaram tanto a saúde dos consumidores como os óculos de grau falsificados, que se tornaram uma febre em um dos maiores centros de compras do Distrito Federal. As lentes e armações são comercializadas aos montes e até laboratórios improvisados foram montados para atender à demanda crescente da clientela.

A reportagem do Metrópoles passou três dias no local e acompanhou o que está por trás do esquema que se tornou uma das maiores fontes de renda de grupos chineses que dominam o mercado da feira. Os consumidores que vão atrás de óculos baratos e passeiam por entre os boxes não precisam se preocupar com receita oftalmológica, exames ou qualquer restrição para fazer as lentes. Óculos de todos os graus estão prontos, à disposição dos clientes.

Todo o processo funciona de forma perigosa e improvisada. Os atendentes das bancas chegam a aviar as receitas médicas, o que deveria ser feito por profissionais como o optometrista, capacitado para fazer medições de amplitude visual. Os óculos, já com as lentes fixadas, ficam expostos nas vitrines. O valor é incomparável: R$ 20 por um óculos com qualquer tipo de grau. Os produtos são de baixa qualidade e as lentes fabricadas em plástico.

 

Laboratórios improvisados
Existem bancas que montaram uma grande estrutura para não perder os clientes. Além de produzir os óculos – supostamente seguindo as receitas oftalmológicas – encaminham as pessoas para exames de vista feitos na própria feira. Os chineses também contam com o apoio de pelo menos dois laboratórios, que ficam instalados no local e produzem as lentes em apenas 30 minutos. Os preços são bem abaixo dos praticados por óticas convencionais.

Rafaela Felicciano/Metrópoles

Laboratório funciona dentro da feira

Durante uma simulação da compra de um óculos sem receita, a vendedora de uma das bancas explicou à reportagem que a ausência do pedido médico não faz a menor diferença. “Temos lentes já prontas e também fornecemos o exame mediante o pagamento de R$ 60. Dependendo do grau, as lentes podem custar entre R$ 100 e R$ 200”, explicou. Os testes oftalmológicos são feitos em salas pequenas no Bloco E da feira. Cada comércio tem “acerto” com o profissional e encaminha os clientes para fazer os exame de vista.

A reportagem identificou dois laboratórios produzindo lentes dentro do local. Um dos pontos fica em uma ótica, que funciona em uma loja situada no corredor ao redor da feira. Após a armação – também falsificada – ser escolhida na banca, as lentes são encaixadas e o produto entregue, sem nota fiscal, é claro.

 

Compra no atacado
Em um dos maiores boxes que trabalham exclusivamente com a venda dos óculos, uma das vendedoras revelou que boa parte do faturamento da banca se deve à venda, no atacado, de armações para óculos para donos de grandes óticas do DF.

Sem saber que a conversa estava sendo gravada, a funcionária confessou que centenas de armações falsificadas de grifes famosas são vendidas quinzenalmente para os comerciantes (veja vídeo). “Eles compram as nossas armações, que são réplicas de primeira linha, no atacado. E vendem nas lojas como se fossem originais. Cada uma custa cerca de R$ 35 e eles revendem pelos preços que costumam ser praticados, entre R$ 500 e R$ 600”, admitiu a funcionária.


Conexão China
O mercado pirata que passou a faturar alto com a venda das lentes e armações fez com que a máfia chinesa – alvo da reportagem “Feira dos Importados – a máfia do comércio de rua” – publicada pelo Metrópoles, investisse pesado na compra dos produtos. De acordo com pessoas que vivem a rotina da feira, pelo menos dois carregamentos mensais chegam ao SIA abarrotados de armações para óculos.

Reprodução/Arquivo pessoal

Carregamentos de óculos que chegam para serem vendidos no centro de compras

Os carregamentos deixam a China dentro de contêineres e partem para para o Brasil em navios. Existem duas grandes portas de entrada. Uma delas é pelo porto de Santos, em São Paulo. De lá, as mercadorias seguem dentro de ônibus fretados ou vans de passeio. Quando chegam ao DF,  os veículos descarregam as caixas na própria Feira dos Importados, na casa dos comerciantes chineses ou em depósitos clandestinos mantidos pela máfia em várias cidades do DF.

A segunda porta de entrada, de acordo com uma fonte ouvida pela reportagem, é pelo sul do país. As mercadorias entram tanto pela fronteira com o Paraguai, em Foz do Iguaçu, no Paraná, quanto pelo porto de Florianópolis, em  Santa Catarina. “Eles perceberam esse novo filão e estão investindo pesado. A feira está abarrotada de óculos falsificados prontos para receberem as lentes”, afirmou o homem.

Sindicato reclama
Prejuízos como a queda abrupta nas vendas e muita dor de cabeça. É desta forma que o Sindicato do Comércio Varejista de Material Óptico e Fotográficos do DF (Sindóptica) enxerga o crescimento do comércio irregular de lentes e armações. A entidade chegou a procurar as autoridades para tentar acabar com a pirataria.

Segundo o secretário executivo do sindicato, Terson Carvalho, o mercado ilegal vem crescendo a cada ano. “Temos tentado procurar ajuda para acabar com a pirataria, mas as ações foram em vão”, lamenta. De acordo com levantamento feito pelo Instituto Meirelles de Proteção à Propriedade Intelectual (Imeppi), com base em informações da Receita Federal, entre 2006 e 2016, 70 milhões de unidades de óculos falsificados foram apreendidos no Brasil.

Perigo à saúde
O presidente do Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO), Milton Ruiz Alves, o principal problema de aderir aos óculos de grau comprados em camelôs ou lojas de comércio informal é que o usuário deixa de ir ao oftalmologista e perde a chance de receber o diagnóstico de doenças graves.

Rafaela Felicciano/Metrópoles

Venda de óculos falsificados é o novo filão dos comerciantes, a maioria chineses

“Uma pessoa com 40 anos de idade que começa a ter dificuldade de leitura e compra um par de óculos no camelô para melhorar a visão de perto deixa de fazer o exame de fundo de olho, capaz de diagnosticar um glaucoma”, diz Alves.

Ele acrescenta que essa negligência é o principal motivo pelo qual mais da metade das pessoas que recebem diagnóstico de glaucoma nos principais hospitais de referência do país já é cega de um olho e tem um prejuízo importante do outro. “Elas não sabem que têm a doença porque nunca passaram por um exame oftalmológico”, afirma o presidente do Conselho Brasileiro de Oftalmologia.

 

 

 

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