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Os recentes desdobramentos do escândalo político envolvendo o conglomerado J&F dominam, atualmente, o noticiário nacional e as principais rodas de conversa. Em Formosa (GO), cidade natal de Joesley Batista, dono da JBS e principal personagem do esquema de corrupção, não é diferente. Os habitantes do município, localizado a 75 quilômetros de Brasília, onde hoje o empresário está detido, dividem-se entre a condenação do delator e a indignação com a escala da operação mantida pela empresa nascida ali durante a década de 1970.

“Quando eu soube que eles tinham comprado aquela empresa da Austrália (o grupo Primo Smallgoods, em 2015), eu falei: ‘Como pode?’. A gente assusta porque vivia na mesma cidade que o cara”, comenta o garçom Elivan dos Santos, 50 anos. Ele é contemporâneo dos filhos do patriarca da JBS, José Batista Sobrinho, o Zé Mineiro, e confirma que a prisão de Joesley, ocorrida na última segunda-feira (11), “é a única coisa que se comenta hoje em dia na cidade”.

Com uma população estimada em 115 mil habitantes, Formosa possui um Produto Interno Bruto (PIB) de R$ 1,5 bilhão, segundo o último levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O número é mais de 100 vezes inferior ao faturamento anual de R$ 170 bilhões da JBS em 2016.

Na fila do banco, a formosense se exalta ao ouvir o nome JBS. “Ninguém aqui aguenta mais esse assunto. É um absurdo de corrupção e a população aqui sem nada”, grita. “Bastava uma mala de dinheiro daquelas para consertar a minha vida”, continua, misturando os escândalos que envolvem Joesley Batista com o ex-ministro do governo Temer, Geddel Vieira Lima, preso após a apreensão de R$ 51 milhões distribuídos em malas encontradas em seu “bunker”, em Salvador.

A conversa no balcão da farmácia não demora para se transformar em debate. “Eles sempre foram ricos. Desde cedo, nunca pagaram imposto por aquele frigorífico”, acusa o advogado. “Dava pra perceber que ali tinha coisa errada. Era muito dinheiro. Ninguém aqui nunca achou que eles eram santos”, completa o farmacêutico. Ambos, no entanto, preferiram não se identificar à reportagem. “Eles ainda têm muito poder por aqui. Ninguém sabe se pode haver retaliação”, justificam.

História apagada
Apesar da influência que a família ainda exerce na cidade, as marcas em Formosa da história de Joesley, que se mudou para Brasília ainda adolescente, foram apagadas ao longo dos anos. As instalações do primeiro frigorífico da JBS, desativado nos anos 80, encontram-se abandonadas e em deterioração. O Colégio Planalto, onde estudaram os irmãos Batista, fechou as portas em 2008 e hoje dá lugar ao prédio da arquidiocese local.

A casa onde cresceram, comprada pelo pai nos anos 70, teve sua fachada alterada e abriga atualmente uma clínica odontológica de um dos primos de Joesley. Segundo os moradores, a ascensão da JBS, o maior conglomerado privado do país, não trouxe nenhum retorno à cidade. Após o fechamento do frigorífico, a família não manteve empreendimentos em Formosa. Na Câmara Municipal, não consta nenhuma homenagem concedida ao empresário.

Da passagem do delator por Formosa, restaram apenas alguns parentes que ainda residem no município. Entre a família imediata, apenas o pai, tido pelos conhecidos como um “homem simples e trabalhador”, retorna regularmente à região. Nessas ocasiões, amigos e vizinhos evitam tocar nos assuntos “Joesley” e “delação”.

“Vítima do sistema”
O sucesso financeiro dos Batistas, que prosperaram com a venda de carne para os canteiros de obra durante a construção de Brasília, nos anos 50, sempre destoou da realidade de Formosa, relatam os moradores. Nos anos 70, circulavam pela cidade de Toyota Cruiser e Dodge Charger, carros famosos da época. A casa, uma das maiores do bairro, era equipada com radiola, televisão e filtro de água mineral, itens raros para as famílias do interior de Goiás.

Vizinho de Joesley durante a infância, o comerciante João Neto, 58 anos, lembra do empresário como um “menino reservado e trabalhador”, que saía do colégio, onde estudava pela manhã, para trabalhar à tarde no frigorífico do pai. A imagem contrasta com o gosto extravagante exibido pelo delator nos últimos anos, que ia de festas particulares em sua mansão no Jardim Europa, bairro nobre de São Paulo, a um casamento orçado em R$ 6 milhões.

O empresário Vigilato Francisco Neto, 64 anos — dos quais por 25 trabalhou como funcionário da Friboi —, lembra de Joesley como um jovem ambicioso e apaixonado pelos negócios do pai. Vigilato afirma não ver com surpresa o escândalo envolvendo os filhos de seu antigo chefe.

Todo mundo sabia que eles eram os maiores financiadores de campanha do Brasil. Onde tem dinheiro, tem poder."
Vigilato Francisco Neto, ex-funcionário da Friboi em Formosa

Para o ex-funcionário, Joesley foi “vítima do sistema”. “Ou você tá dentro daquele esquema ou você tá fora. Ele optou por crescer. De outra forma, você não cresce”, explica. E defende, “apesar dos pesares”, a reputação do delator como um dos maiores empresários do país: “Qualquer cidade queria ter um filho que cresceu como ele cresceu”.

 

 

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