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Depoimentos de detentos que presenciaram o assassinato de Leonardo Filipe Dias, 21 anos, dentro de uma cela no Complexo Penitenciário da Papuda, na madrugada de quarta-feira (15/3), revelam que o crime foi cometido com requintes de crueldade. O Metrópoles teve acesso às declarações. Os detalhes são impressionantes.

Segundo os testemunhos de um dos presos na 30ª Delegacia de Polícia (São Sebastião), nove presos foram os responsáveis pelas agressões. Primeiro, eles utilizaram uma teresa — corda feita de lençóis — para amarrar Leonardo de ponta-cabeça e começaram a espancá-lo com socos e chutes. Só pararam quando a corda se rompeu e a vítima caiu no chão.

Nesse momento, Leonardo ainda conseguia falar. Então, três detentos passaram a queimá-lo utilizando pontas de cigarros. Logo depois, dois presos enforcaram o jovem utilizando a teresa, enquanto os outros o chutavam. Após se liberar dos golpes, mesmo com todas as agressões, Leonardo ainda respirava.

Foi aí que veio o golpe mortal. Enquanto o rapaz estava sentado no chão, encostado em uma das camas da cela, um preso chutou sua cabeça, que bateu no chão. A partir de então, Leonardo não acordou mais, de acordo com o detento que descreveu os detalhes. Além da rivalidade entre gangues de Planaltina, o crime também teria sido motivado por ciúmes de um preso, que estava em outra cela e acreditava que Leonardo havia se envolvido com sua mulher.

Reprodução

Leonardo Dias, 21 anos, foi cruelmente assassinado dentro da cela: ninguém o socorreu

Após as agressões, os detentos responsáveis pelo crime deram banho no corpo da vítima. Em seguida, o deitaram no chão e cobriram com um lençol. O cadáver só foi descoberto na manhã de quarta, na hora do banho de Sol. Trinta e cinco presos saíram da cela, menos Leonardo, que já estava morto. O jovem chegou a ser levado à Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de São Sebastião, onde o óbito foi constatado.

Os nove presos citados nos depoimentos como agressores são: Henrique Ferreira de Souza, Victor Miguel Alcântara Arcanjo, Guilherme Azevedo Tavares, Jairo Costa de Oliveira, Laubert Cabral Bispo, David Jhones Santana de Souza, Bruno Maurício de Almeida, Flávio Campos de Almeida e Gilvan Ferreira da Silva.

Além deles, outros dois detentos, que seriam os mandantes, foram autuados em flagrante pelo homicídio. Todos estão entre os alvos da Operação Tocaia, deflagrada pela 31ª Delegacia de Polícia (Planaltina) em 2014, e condenados por associação criminosa. Estão presos por delitos diversos como roubo, homicídio. Os nomes, a ordem dos fatos e a motivação do crime também são citadas no depoimento de um outro detento.

Família
Após o assassinato de Leonardo, a família do jovem está bastante abalada. Segundo um tio que falou com a reportagem do Metrópoles, mas preferiu não se identificar, a crueldade do crime ficou visível na hora do reconhecimento do corpo. “Foi uma coisa muito desumana. Ele estava todo destruído, com manchas no pescoço, sangue na boca”, afirma o familiar.

Os parentes reclamam ainda da falta de socorro prestada ao jovem, já que o corpo só foi descoberto na manhã do dia seguinte. Afirmam também que não receberam nenhum apoio do Governo do DF. “Não vou fechar os olhos e dizer que ele era santo, mas não merecia passar por isso”, diz o tio.

Ainda de acordo com o familiar, Leonardo morava com a mãe e a avó em Planaltina e foi encarcerado no dia 9 de março, por receptação de produto roubado. Segundo o tio, o jovem foi enterrado na quinta-feira (16), no Cemitério de Planaltina.

Leonardo estava no Bloco 6, do Centro de Detenção Provisória. Embora tivesse gritado por socorro, as autoridades não chegaram a tempo de salvar o detento, que respondia por crimes como os de latrocínio (quando ainda era adolescente), roubo a pedestre, porte ilegal de arma de fogo e receptação.

Briga de facções
De acordo com fontes policiais ouvidas pelo Metrópoles, a vítima pertencia a uma das gangues de Planaltina. Teria sido atacada por rivais que o “julgaram” e o “condenaram” a passar pelo suplício do chamado “tribunal do crime”, um jargão usado pelos próprios bandidos. No caso, o “veredicto” teria sido o de espancamento coletivo.

O Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) não foi chamado, como manda o protocolo. Leonardo foi levado morto à UPA de São Sebastião. Em seguida, encaminhado ao Instituto Médico Legal (IML).

Em nota, a Secretaria da Segurança Pública e da Paz Social disse que a 30ª DP abriu inquérito para investigar as circunstâncias da morte do detento que estava sob custódia.

 

 

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