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Se você ainda não viu “Rick and Morty”, vale uma recapitulação. A série estreou em 2013 no Adult Swim e trazia ideias do showrunner Dan Harmon (que já havia levado o humor absurdo ao limite em “Community”) e do animador Justin Roiland (“Hora de Aventura”). O resultado, porém, foi muito além de qualquer possível expectativa. Eu já havia comentado brevemente meu entusiasmo pelo seriado aqui na ZIP.

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O potencial para essa animação estava dado desde a premissa: Rick é um cientista absurdamente genial – capaz de criar qualquer dispositivo tecnológico e viajar para outras dimensões –, egoísta e alcoólatra, que vive margeando os limites da sociopatia. Ele leva seu neto Morty, um garoto inseguro e motivado por convicções morais mais sólidas, a aventuras de derreter o cérebro dentro de possibilidades impensáveis da ciência e também de sociedades alienígenas.

Na primeira temporada, por exemplo, Rick cria um “Jurassic Park” de micróbios dentro de um mendigo. Já na segunda, a Terra é aprisionada por seres-cabeças-gigantes que obrigam vários planetas a participarem (sob risco de destruição) de um reality show de música pop. Enquanto são adoradas por humanos ignorantes, as cabeças, alienadas de tudo que acontece na Terra, só querem saber de seus próprios propósitos. Perturbadora metáfora dos cultos e das religiões.

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Além disso, Rick é um terrorista interdimensional. A partir do momento em que ele volta a morar com a família (que inclui os pais de Morty, Jerry e Beth, e sua irmã, Summer), as relações familiares começam a se desintegrar. Como podemos ver, a série tem cavalares doses de humor obscuro, sátira pesadíssima e soluções histéricas para problemas éticos, religiosos e políticos. Nada escapa de seu horizonte de eventos.

A terceira temporada, que estreou em abril deste ano e ainda está em continuidade, porém, avança ainda mais nos plots degenerados e usa todo tipo de desdobramentos surrealistas para criar uma ousada metáfora da vida familiar.

Sem limites
Logo no primeiro episódio da nova temporada, Rick está aprisionado por um governo galáctico ao mesmo tempo em que é perseguido por outros Ricks de uma cidadela composta por Ricks e Mortys de outras dimensões (não me pergunte…). Seu plano de libertação inclui ludibriar um agente que se infiltra em sua própria mente para extrair seu passado.

Isso faz Rick criar memórias falsas, tomar conta do corpo do captor, entre outros feitos que misturam a tensão de “Missão Impossível” com ficção-científica indie. Logo percebemos que o cientista é não apenas o maior “fodão” de todos os universos do desenho, como também de todas as séries de TV e filmes.

A terceira temporada vê aumentar tanto a capacidade que o cientista tem em se livrar de situações impossíveis quanto em prevê-las. Isso torna divertida a experiência de tentar antecipar quantos passos Rick está à frente de seus coadjuvantes. No terceiro episódio, ele se transforma em um picles (isso mesmo) como desculpa para não ir à terapia familiar. No quarto, derrota todos os “Vindicators” (os “Vingadores” locais) em uma entediada noite de bebedeira (bela paródia expondo o ridículo da cultura de super-heróis).

No sexto, sua contrapartida “tóxica” é isolada em uma dimensão onde são aprisionadas as motivações ruins das pessoas. Mesmo em tão improvável localidade, ele consegue se libertar “usando apenas a inteligência”, como se fosse um MacGiver intergaláctico capaz de sair de qualquer situação usando apenas suas mãos nuas e ciência (bitch!).

A nova temporada é prolífica também em expandir o universo desenvolvido nas outras em uma imensa piada interna, criando relações malucas entre os universos que Rick e Morty visitam. No sétimo episódio, a “cidadela” dos Ricks e Mortys de todas as dimensões vira alvo de intensa problematização a partir do momento em que o Rick da “nossa” dimensão destrói seu centro de controle. Ela se torna alvo de manipulação política, violência e degeneração, clara metáfora da polarização em que vivem os Estados Unidos atualmente.

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O mais impressionante dessa desenfreada temporada (ela termina no 10º episódio, que será exibido em 1º de outubro), no entanto, não é o avanço galopante nas habilidades sobre-humanas de Rick, ou sequer as tramas interdimensionais. Por trás de cada episódio, de maneira sagaz, reside um conflito familiar polarizado por um dos membros da família. Beth o admira por sua genialidade, mas o condena por seus atos vis e mentirosos. Morty vai nutrindo uma relação ambígua, cheia de rancor, porque é o que conhece o avô mais a fundo. Jerry o odeia por ter inescrupulosamente interferido em sua relação com Beth. E Summer vai angariando sinais de delinquência e rebeldia.

“Rick and Morty” não é uma série simples. Seu humor é abusado, muito verbal, e, por vezes, exige determinados conhecimentos, tanto de ciência quanto de cultura pop, não acessíveis a todo tipo de público. Alguns a consideram imoral, revoltante. Certos paralelos complexos com a nossa realidade são ainda mais difíceis de se captar do que, por exemplo, em “South Park” e outras séries de humor obscuro.

A irrefutável verdade, porém, é que, goste-se ou não, trata-se do programa ideal deste momento calamitante de alienação global. Algo que traumatize nossas pupilas no limite do que podemos processar. Aqui, as outras dimensões nunca estiveram tão próximas de nossa incômoda vida familiar e social.

“Rick and Morty” está disponível no site do Adult Swim, e as duas primeiras temporadas na Netflix brasileira.

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Rick and MortyAdult SwimPickle Rick
 


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