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Economia criativa é a chave para se compreender o fenômeno de publicações independentes que varre a produção brasileira de quadrinhos na atualidade. Sem o intermédio de grandes editoras. Produções experimentais, livres. Negociação direta com o artista. Grandes feiras que congregam fãs e autores. Troca de ideias. Correria, pouca grana, mas ainda assim satisfação, liberdade. É a chance para quem produz obras gráficas à margem da nossa já parca indústria. Essa cena funciona como substrato para a descoberta de novos autores, a semente de novas tendências.

É dentro desse fértil ambiente que emerge, em Brasília, a terceira edição da Feira de Publicações DENTE, que ocorrerá, em 17 de junho, no Conic. Estão abertas inscrições para projetos e mesas do 2º Prêmio Dente de Ouro (até 21/04), que vai premiar com R$ 500 o melhor quadrinho e o melhor zine. É hora de correr atrás.

A DENTE surgiu em 2015, organizada pelo coletivo de mesmo nome, composto pelos quadrinistas, artistas, ilustradores e designers Augusto Botelho, Daniel Lopes, Extraterrestre, Heron Prado, Livia Viganó, Lovelove6, Lucas Gehre e Tais Koshino. Por mais que todos estejam envolvidos, de uma forma ou de outra, com a nona arte, a feira não se limita aos quadrinhos. Artes plásticas, poesia, literatura e fotografia, além de muito hibridismo, também estão no escopo. E o Conic, tradicional point underground de freaks e hipsters de Brasília, não poderia ser melhor palco.

Aproveitando o momento, resolvi fazer uma perguntinha para o organizador Daniel Lopes e escrever (conforme fiz na primeiríssima postagem da ZIP) mais cinco indicações de quadrinhos produzidos recentemente em Brasília e que merecem a sua atenção. Talvez você os encontre na DENTE!

Uma pergunta para Daniel Lopes:
Qual o sentido político e editorial de ser fazer um prêmio para publicações independentes em quadrinhos e quais serão os critérios de seleção?

A ideia é incentivar a produção e oferecer um prêmio mesmo, em dinheiro, que possa ajudar os autores um pouco e não seja só um título. Os critérios são qualidade, relevância, originalidade, além dos aspectos subjetivos. O Daniel Eizirik, que ganhou ano passado, já está fazendo um projeto novo com a grana da premiação, por exemplo.

ZIP indica: mais cinco quadrinhos de responsa feitos em Brasília

O Lobisomem/A Múmia – Eduardo Belga (Cachalote, 2015): Horror e erotismo hardcore são os elementos principais desta bizarra HQ escrita e desenhada pelo professor de anatomia Eduardo Belga, um dos principais artistas de Brasília na atualidade. Ele expõe suas obsessões eróticas e escatológicas em imagens dignas de pesadelo nas releituras muito pessoais de dois monstros clássicos. Para incomodar e, certamente, não recomendado a menores.
Brainstorm – Heron Prado (Independente, 2017): Compreender a mente do jovem quadrinista Heron Prado é se embrenhar num lamaçal de palas. Seus quadrinhos são misturas de conversas maloqueiras do dia a dia com sacadas filosóficas (niilistas, diga-se) sobre tempo, consciência e realidade. “Brainstorm” é a sua primeira obra longa e o cruzamento das figuras deformadas/arquetípicas no seu traço elementar produz profundo estranhamento. Coisa de maluco, mas daqueles talentosos. Foi premiado na DES-GRÁFICA em 2016.

D.A.D.A. (Pagu Comics, 2016) – Renata Rinaldi e Roberta Araujo: Esta HQ, lançada virtualmente pelo portal de streaming de quadrinhos Social Comics, faz parte do selo Pagu, do mesmo site, destinado a publicar talentos femininos da nona arte no Brasil. Trata-se de uma tentativa de trazer diversidade ao careta mundo super-heroico. Afinal, são quatro heroínas negras com visual cyberpunk que se propõem a combater o machismo. Se não dá pra dizer muito da curtinha primeira edição, podemos falar da arte da brasiliense Renata Rinaldi: há forte personalidade, ótima paleta de cores e olhares e poses que já são típicos da artista. Da capa, às letras e à arte-final, tudo em “D.A.D.A.” foi feito por mulheres.
Metrô –Guilherme de Lacerda, Dino Motta, Filipe Henz, Eduardo Calazans, Marmota, Lucas Bonacho (Incoerente Coletivo, 2016): Este simpático gibi impresso em “formatinho” reúne as sensibilidades de diversos artistas do coletivo de Taguatinga para traduzir as experiências, impressões e personagens que habitam as estações de metrô em Brasília. A ideia é pensar a vivência da coletividade urbana como metáfora de passagem, de transitoriedade, de convívio efêmero, por meio de uma arte limpa, numa edição muito atraente.

Cesariana – Lucas Marques (Aerolito, 2013): Também disponível no Social Comics, “Cesariana” é um ótimo romance gráfico produzido por Lucas Marques, outro dos melhores quadrinistas da mais recente geração brasiliense. Com robustas 157 páginas e forte influência de autores como Charles Burns e Daniel Clowes, ele vai costurando a trajetória de três amigos numa Brasília de classe média baixa, envolvendo temas tão fortes e complexos quanto religião, crises existenciais e skate!

 

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