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Em sua mais famosa história (“O Aleph”), Jorge Luis Borges, o gigante da literatura argentina, descreveu a maneira com que um homem comum encontrou, debaixo de uma escada em uma casa velha, um ponto (o tal “aleph”) que levasse o observador a qualquer lugar no tempo e no espaço, simultaneamente. A viagem dele era a busca pela ubiquidade: seu personagem (no caso, alter ego de si mesmo), obcecado por um antigo amor, tem a curiosidade de vivenciar novamente cada momento do passado e adentrar em cada pensamento já vivido por essa mulher.

O que o jovem Borges vê no conto, no entanto, se parece mais com aquilo que o artista americano Richard McGuire apresenta no inclassificável romance gráfico “Aqui”, lançado agora no Brasil pela Cia. das Letras. Como se adentrasse na ideia do escritor argentino, a HQ de McGuire, a partir de um ponto no espaço (a sala de estar de uma casa e sua lareira em estilo colonial), nos leva a centenas de situações diferentes que se passaram neste mesmo espaço, de um passado remoto na era dos dinossauros até um futuro de realidade virtual.


Mas como isso é possível? Cabe uma pequena contextualização: em 1989, McGuire fazia parte de uma geração de artistas gráficos que circulavam ao redor do influente Art Spiegelman (de “Maus”), editor da revista de vanguarda em quadrinhos “Raw”. Foi lá que McGuire publicou pela primeira vez o protótipo do seu experimento: uma história em quadrinhos de seis páginas situada em um único ponto fixo (o canto de uma sala) em que cada quadro se subdividia em outros tantos, sempre com uma data indicando o que se passa naquela sala, naquele momento específico.

Por mais que tivesse todo o jeitão de experimento e uma arte simples, quase didática, a primeira versão de “Aqui” deu o que falar e influenciou os quadrinhos contemporâneos. Chris Ware, o mais prestigiado quadrinista da atualidade, escreveu sobre ela: “Era a primeira vez que eu me sentia a tal ponto sufocado. Sentado neste sofá, eu senti o tempo se esticar tanto em direção ao futuro quanto ao passado, consciente dos mais preciosos entre os momentos insignificantes que se encontravam entre os dois”.

O “Aqui” publicado na Raw, em 1989.

Em 1999, porém, após se tornar clássico capista da “New Yorker” e autor de prestigiados livros infantis, McGuire sentiu que era necessário voltar à “Aqui” publicada na “Raw”. E foram precisos mais 15 anos de trabalho e pesquisa para que o novo livro visse a luz. Desta vez, o artista pariu um robusto catatau com 300 páginas que complexificam o experimento original e o elevam ao patamar da grande arte. Esta preciosidade chega agora ao Brasil em tradução de Érico Assis.

Rimas de tempo e espaço
Se, no conto de Borges, a noção de ubiquidade a partir de um ponto não passa de uma ideia genial convertida em especulação literária, neste novo “Aqui” a sensação que temos é de que os quadrinhos foram o meio encontrado para trazer materialidade ao aleph. Em cada página, passeamos por diversas épocas, acompanhando, de maneira fragmentária e (não totalmente) aleatória as vidas de alguns personagens escolhidos para que suas diferentes gerações sejam mostradas nestes momentos vividos no espaço da sala de estar dessa casa.


Objetos, animais e até eventos históricos também marcam presença nesse vórtex temporal. McGuire insere povos indígenas americanos, personagens do futuro e todo tipo de fauna e flora que existiu naquele pequeno pedaço de espaço durante a história do nosso planeta. A Revolução Americana é pensada na presença de Benjamin Franklin, vizinho de um antepassado do autor. Logo percebemos que acompanhamos a história de gerações de uma mesma família, que McGuire declarou em entrevista ser a sua própria.

O momento ínfimo é importante em “Aqui”. Podemos dar saltos de bilhões de anos entre os quadros, ou de apenas centésimos de segundo (como uma flecha voando — evocando o famoso “paradoxo de Zenão” –, um pouquinho em cada página). McGuire ainda realiza sofisticadas combinações visuais, como se fossem rimas e composições em colagem, representando momentos parecidos ou irônicos vividos em épocas diferentes, mas naquele mesmo espaço. Em uma página, todo mundo está xingando algo em algum momento do tempo. Em outra, todos estão dormindo.


Este tipo de afinidade morfológica entre as imagens é trabalhado meticulosamente pelo autor, que cria composições psicodélicas a partir de diferentes matrizes de ilustração, pintura e colagem. Também temos pistas do significado geral da HQ em falas “aleatórias” nas bocas dos personagens vivendo estes instantes. Há uma curiosa página em que, no ano de 1943, no âmbito da segunda guerra, o rádio anuncia: “Logo mais, um anúncio muito importante”. No que, na mesma página, mas num quadro em 1986, uma velha governanta suspira e “responde”: “Um dia, eu não saberei mais nada”.

“Aqui” é o tipo de obra em análise combinatória cujas possíveis leituras ultrapassam os limites da crítica. Sua interpretação passa desde a qualidade infinitesimal do tempo até as mudanças na indumentária na medida em que avançamos no século XX. É o tiro de misericórdia na obsoleta definição de Scott McCloud para os quadrinhos: “Imagens pictóricas e outras justapostas em sequência deliberada”. Em “Aqui”, as imagens nunca são justapostas e a sequência, sempre em simultaneidade. Esta obra permite uma nova definição para os quadrinhos: a única forma de arte que pode ser um aleph.

Richard McGuireAquiChris Ware
 


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