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Um rapaz passou mal no trabalho. A dor no braço direito indicava que poderia ser infarto. Seus amigos, muito preocupados, o levaram ao hospital mais próximo, apesar dele mesmo estar bastante tranquilo. O hospital era público e o procedimento padrão foi adotado.

Na triagem, o enfermeiro nada perguntou, apenas lhe pediu a carteira de identidade para preencher a ficha. Ao ver o documento, com um olhar de estranhamento, olhou novamente para o homem, mas nada disse. Anotou exatamente o que estava escrito no RG. Só então lhe pediu que descrevesse os sintomas que sentia.

O rapaz voltou para o banco, esperando ser chamado. Aguardou o tempo básico de espera em um hospital público – se fosse realmente infarto, daria tempo de morrer 15 vezes. Finalmente saiu a enfermeira, que o chamou por um nome feminino, conforme estava escrito no papel. Ele se levantou, seguido pelos olhos de todos os presentes.
No consultório, enquanto ele esperava sentado na maca, entra o médico, até bastante simpático, que lhe cumprimentou animadamente:

– Bom dia, dona…

O doutor não completou a frase, pois não vira uma mulher na sua frente. Conferiu mais uma vez na ficha e achou mais prudente passar o resto da consulta tratando-o de forma sem gênero. Entretanto bastaria que ele tivesse perguntado ao rapaz e ele diria que prefere ser tratado no masculino.

O médico receitou todos os exames necessários. Quando os resultados chegaram, para estranhamento do médico, os resultados tinham dado completamente alterados. O rapaz devia estar prestes a morrer, contrariando explicitamente a sua imagem de tranquilidade.

O homem do jaleco branco mostrou o resultado a outros doutores, que também se espantavam ao ficar de frente com o rapaz. Primeiro por ser um homem, a despeito do que dizia o prontuário. Segundo pelos dados ali registrados. Depois de muita especulação decidiram refazer todos os exames e foi nessa hora que alguém se tocou: refaça e coloque na ficha o sexo masculino.

Milagrosamente, desta vez veio tudo normal, apesar dos números não terem mudado. O que mudou foi apenas os níveis de comparação. Se você olhar para qualquer exame, os níveis esperados para homem e para mulher são diferentes. E quando você toma testosterona, seu corpo funciona de forma masculina, digamos assim.

No fim, o que o rapaz tinha era apenas uma distensão do nervo do braço, tratada sem maiores complicações. Mas todo este mal-entendido poderia ter sido evitado se na ficha de triagem, além de nome e sexo, também perguntasse se a pessoa é cis ou trans. E que o paciente seja visto além dos dados injustamente equivocados da carteira de identidade.

 


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