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No post da semana passada, eu escrevi sobre o Festival de Cinema de Brasília. Não planejava voltar a falar dele, mas uma agradável surpresa me fez sentar feliz na frente do computador para falar de um filme que me cativou de forma tão terna como há muito eu não sentia. Foi a produção amazonense “Antes o Tempo Não Acabava“, dos diretores Sérgio Andrade e Fábio Baldo.

Na história, um indígena precisa enfrentar as rígidas regras morais da própria tribo. Por exemplo, o filme começa com o doloroso ritual de passagem da infância para a fase adulta dos meninos, em que eles tem que aguentar enfiar a mão numa luva cheia de formigas maiores do que um dedo.

Depois, Anderson (o índio), decide largar seu emprego numa fábrica de ar-condicionado da zona franca de Manaus para ser cabeleireiro, ao mesmo tempo em que enfrenta a decisão das autoridades da tribo de sacrificar a filha da sua irmã por ter algo que parece ser síndrome de down.Segundo eles, uma criança com essas características traria coisas ruins para a tribo.

Cansado e abatido da luta contra o regime estabelecido, que ele não concorda, e que logo se vê na também na mira, Anderson resolve ir embora para tentar a vida na cidade grande, no meio dos brancos. A essa altura, ele já se olhou no espelho e encarou todas as questões de orientação sexual e de gênero que fazem parte do seu ser. E como nós, brancos, sabemos muito bem, essas caraterísticas não vão ajudá-lo em nada na sua vida entre nós. Mas é quem ele é e Anderson ama sê-lo.

O filme possui um belo roteiro e é elegantemente executado. Mostra por que as políticas de cultura descentralizadas são tão importantes para um país imenso como o nosso e os diretores de “Antes o Tempo Não Acabava” celebraram-nas com toda a convicção. Sem elas, não teriam chegado até um dos maiores festivais do país. Nem eu teria tido a chance de ver algo tão belo. Ver uma circunstância que nos é familiar, mas com um olhar diferente e, ainda assim, conseguir nos tocar é o que a magia do cinema, quando bem feito, é mais capaz de nos provocar.

Após a apresentação, durante o debate sobre o filme, uma antropóloga chamou a atenção para essa representação de que tribos indígenas são antros bárbaros que sacrificam crianças e que são contra a homossexualidade. A ressalva é válida, mas também é preciso lembrar que o filme é uma ficção, é arte. Que ninguém assista-o, ou qualquer representação de cultura estranha, e saia de lá achando que está sabendo de tudo das regras de uma sociedade.

Divulgação

Além do mais, os equívocos podem acontecer também em sociedades judaico-cristãs-ocidentais. A orientação sexual tem sido apresentada como algo a ser consertado e usam-se expressões como: “fruta dos pés dos periquitos” e “terapia corretiva em nome de Jesus”. Seja ciência, seja religião, seja entidade pagã, nenhuma delas têm o direito de reprimir a sexualidade ou o gênero de qualquer pessoa.

Inclusive, no filme, quem reprime o protagonista é o xamã e o chefe da tribo. A entidade mesmo dá super força para ele e ainda o brinda com um objeto mágico para que ele encontre seu caminho."

Se quiser, você pode assistir o filme como uma história interessante sobre um índio que acaba entrando no mundo dos brancos, mas eu só pensava que era uma história sobre nós mesmos. Não é sobre nós olhando para a cultura exógena, é sobre o olhar externo sobre nós.

A violência do ritual final para abrir os olhos de Anderson para ver as mulheres é a nossa homofobia institucionalizada. Mas Anderson, com sua bela alma, sobrevive. E eu torço para que este não seja o grito isolado de um indivíduo, nem de um último filme amazonense.

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