">
*
 
 

Na sala de espera do médico, eu folheava uma “Caras” antiga completamente desinteressado. Mas nos bancos do lado, duas senhoras conversavam. Depois de falarem mal de todo mundo que conheciam, acabaram achando um assunto que me atraiu mais a atenção do que o banheiro da subcelebridade.

– Sabe o filho da Fulana? Ele é um menino tão bom, tão bonitinho. Acho que ele é veado.
– Será? Não sei. Eu nunca observei nada disso.
– Mulher, lembra a viagem que a gente ia fazer para Goiânia e na última hora ele desistiu de ir? Pois no final de semana seguinte ele foi com um “amigo” – e fez o sinal das aspas com os dedos. “Amigo”, né? Sei! Tá na cara que esse “amigo” é namorado.
– Nããããão! Jura? Eu não sabia que ele tinha ido no final de semana seguinte. Estou chocada. Coitada da Fulana. Será que ela já sabe que ele…

E fez um gesto com a mão que tanto poderia ser lido como desmunhecar como do Homem Aranha jogando várias teias pela sala.

– Deve saber. Tá na cara. Só olhar para o cabelo dele, todo arrumadinho, e as camisas engomadinhas. Quando não, são umas com as mangas dobradas até em cima. Bonito daquele jeito, mulher? Sei! Gay é que é bonito assim.
– É mesmo. Ele é a cara do filho da Camila Pitanga na novela do homem que morreu. E usa camisa rosa.
– O pai dele é tão preconceituoso. Não sei o que ele vai fazer quando descobrir, porque tá na cara. Mas tem pai que não quer ver. Só acredita quando lhe dizem com todas as letras.

A esta hora, minha revista estava servindo para esconder a imensa risada que eu tão dolorosamente tentava manter silenciosa por causa desta conversa maldosamente especulativa e tão embasada no mais ridículo preconceito. Mas eu jamais estaria preparado para o gran finale, quando a mais cautelosa perguntou:

– Você veio de carro? Posso pegar carona contigo para casa?
– Não vai dar, mulher, tô sem carro. A minha filha foi ontem no show da Maria Gadú com as amigas. Disse que voltava cedo, mas chegou de madrugada. Passei a noite ligando para ela, mas 1 da manhã e o show nem tinha começado ainda. Eu só tava tranquila porque ela nunca anda só. Está sempre com as amigas.

Confesso que venenosamente pensei: “Amigas, né? Sei”!

gaylgbtLésbicas
 


COMENTE

Ler mais do blog