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De repente, parece que na sigla LGBT o T, além de significar transgêneros e travestis, também agora significa TV. A visibilidade trans chegou com força total na TV aberta brasileira e está colocando todo mundo para falar sobre. Mas isso é uma coisa boa? E está sendo de forma a trazer ganhos positivos aos Ts originais?

Nos últimos anos, a transgeneridade tem despertado o interesse das mídias em todo o mundo. Inicialmente ganhou destaque nas produções ficcionais o que trouxe o debate sobre representatividade: por que personagens transgêneros são sempre representados por pessoas cis (homens e mulheres)?

Os protestos acabaram abrindo espaços para pessoas trans interpretarem papéis de pessoas trans ou até mesmo de pessoas cis. Afinal, se um ator com talento é capaz de interpretar qualquer personagem – ou alguém duvida que a Meryl Streep concorreria ao Oscar até mesmo no papel do Batman -, por que uma pessoa trans talentosa também não seria?

Reprodução/Globo

Inclusive, foi assim que o mundo ganhou o talento de Laverne Cox, que é uma extraordinária atriz. Em seguida, a pauta foi para os programas “mais sérios”, como séries de reportagens, investigações médicas e programas de debates de assuntos.

O mesmo caminho foi percorrido no Brasil. Muito timidamente os personagens trans entraram nas novelas, depois conquistaram espaços nas séries da TV a cabo para finalmente virar assunto na “programação séria”. Agora estamos assistindo a chegada do tema à TV aberta, sobretudo no maior canal de TV do país. E qual o resultado disso?

É curioso como o simples fato de um tema aparecer na tela da Globo legitima que ele possa ser debatido em alto e bom som, e não mais a vozes baixas nos cantos. Uma conhecida que sempre soube que eu escrevia esta coluna, e nunca se interessou em conversar comigo sobre, finalmente se sentiu à vontade para se manifestar:

– Você viu aquela série sobre pessoas trans que tá passando no Fantástico? Eu sempre achei que uma mulher trans era um homem tão gay que acabava virando uma mulher. Acho que era um bom tema para a sua coluna.

Não me contive de satisfação em dialogar com ela abertamente sobre a transgeneridade até o ponto em que ela revelou ter um “primo” que é uma mulher trans e que – choque geral na família – namora uma “mulher” que é um homem trans.

– Como assim ele não namora um homem? Ele não é gay?

A gente conversou até ela compreender alguns conceitos, mas admitir que não consegue vislumbrar o que é aquilo. Tudo bem. Achei mais importante ela confessar que se fosse a filha dela, não saberia como reagir, mas que pelo menos agora não ia pedir que Deus a levasse. “Ela pode até ser feliz assim”.

Cesar Alves/Globo

Para o bem ou para o mal, vivemos em uma sociedade onde a legitimação do que é aceitável passa pela TV e ela precisa lucrar com isso. Um programa que se propõe a apresentar drag queens está ganhando dinheiro com elas? E muito! Mas ele também está fornecendo informações e sensibilizando pessoas para a pauta? Tenho observado que sim.

Um canal na TV aberta é uma concessão pública. Ela ganha o direito de veicular imagens e deve prover alguma contrapartida por isso, como informação e educação. Somos a geração da internet, mas ainda existe aquela vovozinha lá no interior que a TV é sua principal fonte de formação. Ela também tem direito a saber o que é uma pessoa trans. E se ela está aprendendo a respeitá-las por isso, acho que o objetivo foi atingido.

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