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Quero mandar um beijo, um beijo para minhas amigas travestis"

A todas que se sentiram ofendidas quando “jornalistas” divulgaram imagens de um ator famoso de tevê atrelado à notícia “Vaza vídeo de Fulano de tal em companhia de travestis”.

Perdão, amigas, estamos no mundo século 21 e veículos de comunicação ainda tratam travestis como “escórias” da sociedade.

Qual o problema de se conviver cotidianamente com travestis?"

Sou amigo de várias humanas travestis e um certo orgulho de tê-las por perto num tempo em que ainda se mata travestis por ódio de simplesmente existirem.

São atrizes, cabeleireiras, cantoras, produtoras, caricatas, maquiadoras, dubladoras da noite e modelos. Acima de qualquer rótulo, são vencedoras porque, um dia, desafiaram o que lhes parecia  imutável: ser o que se deseja ser.

Certa vez, numa entrevista jornalística, conheci jovens travestis de 13 a 15 anos, que se prostituíam nas ruas de Salvador porque tinham sido enxotadas de casa como cães leprosos. Elas estavam ali, tão jovens, clandestinamente, nas agruras do mercado do sexo, aprendendo a sobreviver à barbárie do preconceito. Disfarçavam, num humor cortante, a dor do abandono das famílias, que as jogou nos braços de estranhos algozes, quando deveriam estar estudando, seguras e amparadas.

Seguidamente, eram encaminhadas pela Polícia para o Conselho Tutelar, mas, depois, saíam e retomavam as atividades da noite. Não havia escolha. E isso não é, como muitos julgam no alto das suas crenças implacáveis, uma sem-vergonhice.

Quando fiz essa reportagem, era o ano de 2000. Quantas dessas travestis, hoje, estão vivas?"

A jovem travesti de rua não tem opção. Quem vai adotá-la? Quem vai mantê-la estudando, comendo, vestindo e sonhando? Quem vai dar uma oportunidade de trabalho? E como seguir rumo ao mercado sem estudos?

A decisão de se tornar travesti é seguida de um duro corte em laços sociais. Geralmente, esse então menino rompe simultaneamente com família, escola, vizinhança e amigos por conta de uma decisão íntima. Da noite para o dia, estará sozinho no mundo que deseja lhe devorar. Se for pobre…

Não deve ser fácil para muitos pais descobrirem a difícil decisão do filho se tornar uma travesti. No entanto, virar as costas a uma cria que não segue o caminho que lhe parecia óbvio é selar o duro destino que virá"

Ao sair de casa, com a roupa do corpo, o que seguirá pela frente é o convívio entre a “felicidade de ser o que se deseja ser!” e os riscos iminentes de morte. No Brasil, matam-se travestis a rodo, nas esquinas, nos carros, nos quartos de hotéis baratos. São crimes prescritos rapidamente. Nos grandes centros, muitas vivem na miséria, caem no crack e no mundo do crime. As que conseguem sair da prostituição o fazem por meio de habilidades específicas, de casualidades, de golpes da sorte e de dons naturais.

A história das travestis de rua no Brasil seria outra se houvesse uma rede de oportunidades"

É comum, tempos depois, algumas dessas travestis abandonadas e, hoje, bem-sucedidas, voltarem para amparar essas famílias que lhes viraram as costas. Justamente, porque muitas compreendem a dificuldade educacional e cognitiva desses pais em entender a complexa natureza da sexualidade humana.

Felizmente, novos tempos arejam essa triste trajetória. Há famílias, nos grandes centros urbanos, que acolhem a decisão dessas filhas inesperadas. E, certamente, essa será uma geração de cidadãs trans em diversas carreiras profissionais. Porém, trata-se de um movimento ainda pequeno perto da barbárie que se alastra em regiões mais pobres do Brasil. É preciso pensar numa política pública de educação, de inclusão, de proteção e de oportunidades para as trans, porque estamos falando de vidas e, na maioria dos casos, de jovens vidas.

Quero mandar um beijo, um beijo para minhas amigas travestis"

Pela coragem de trocar a roupa do corpo para manter a alma leve e coerente com seus desejos.

Por fazer um estreito compromisso com a felicidade de seguir a vida par a par com o íntimo, mesmo com todos os riscos que rondam a vida de uma travesti.

lgbttravestis
 


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