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As fotos e os vídeos de Priscilla Toscano estão espalhados, como vírus, pelas redes sociais. É quase impossível mapeá-los. Em horas, os arquivos em que a atriz, performer e arte-educadora defecava sobre a foto do deputado Jair Bolsonaro se desdobraram em incontrolável escala exponencial.

 Em muitos compartilhamentos, seguiam acoplados, comentários tingidos de ódio e de ameaças à integridade física. Em questão de dias, foi preciso desaparecer. Trocar de endereço, de carro, de rotas e de local de trabalho.

O ataque não foi contra o ato performático em si. O ataque foi revestido de machismo e de misoginia. Há nessa rejeição uma questão de gênero. Tenho uma coleção de mensagens com adjetivos que não são aplicáveis ao sexo masculino. E se fosse um homem que tivesse defecado? Será que ele teria sido desqualificado como eu fui?"
Priscilla Toscano

Na última semana, Priscilla Toscano esteve em Brasília. Veio com “Cegos”, do Desvio Coletivo, que dirige ao lado de Marcos Bulhões. A performance é um dos grandes destaques desta edição do Cena Contemporânea. Esteve bem perto das barbas do poder. No entanto, circulava irreconhecível.

Precisou mudar de visual. Cortou e pintou o cabelo. Fez uma transformação típica de um programa de tevê dominical para não ser reconhecida. Em nada lembra a foto que ilustra esta coluna. Na cidade, aceitou conversar com o Metrópoles. É a primeira vez que ela conta os detalhes que cercaram sua vida depois daquele 23 de abril de 2016.

Tive que seguir protocolos de segurança para proteger a minha vida. Recebi ameaças de todos os tipos. Do estupro coletivo à possibilidade de agressão física. Fui perseguida nas redes sociais e por alguns veículos de comunicação, que divulgaram o meu endereço, o local do trabalho, o número do telefone e a placa do carro. De uma hora para outra, experimentei um inferno. Passei por uma perseguição política"
Priscilla

Ações fascistas
A cabeça de Priscilla Toscano foi colocada à prêmio. Pediram a demissão dela da Secretaria de Cultura de São Paulo, onde atua como orientadora vocacional de teatro. Invadiram suas redes sociais. Em menos de três horas, 600 mensagens agressivas entraram em sua caixa de mensagem no Facebook. O Metrópoles teve acesso há algumas e, por respeito ao leitor, resolvemos não reproduzi-las.

Muitos perfis eram falsos. Mas muitos, reais; de seguidores do deputado e de páginas que o apoiam para presidente. Com ajuda do meu advogado, registramos um a um para formular uma queixa-crime. A internet não é terra de ninguém"
Priscilla

Priscilla teve que apagar as contas das redes sociais. Para voltar à internet, mudou o nome artístico. A circulação livre pela cidade de São Paulo também se interrompeu. Por questão de segurança, foi trabalhar em outro equipamento cultural. Enquanto isso, a vida pessoal e artística começou a ser vasculhada. Associaram a performance ao seu trabalho com adolescentes. No entanto, nenhum estudante fez alguma objeção em continuar sob sua supervisão. Tampouco famílias se manifestaram negativamente.

Linhagem de mulheres
O trabalho performático de Priscilla Toscano segue uma pesquisa de gênero, que tem a vagina como um órgão de discussão política da mulher no mundo. Foi reduzido ao campo do obsceno. Priscilla estuda uma linhagem internacional de performers como as pioneiras VALIE EXPORT (Áustria) e Shigeko Kubota (Japão) e de contemporâneas, a exemplo da mexicana Rocío Boliver. Todas artistas respeitadas e conceituadas pela crítica e público.

Não estou inventado nada. Sigo uma linha de pesquisa. Faço arte com discussão política de gênero. Aliás, Rocío Boliver defecou sobre a foto de um candidato mexicano e provocou uma discussão interessante em seu país"
Priscilla

No caso de Priscilla, a consequência no Brasil foi de linchamento moral e preconceituoso. Em parte, pela ignorância de um público que desconhece o alcance político da arte. Isso se reflete no nível de mensagens que recebeu. Do pedido de homens para fazer programas sexuais a aconselhamento do tipo “você é tão linda, não deveria fazer esse tipo de coisa”. Mesmo que num avançado grau de estudo, teve que lidar com o pensamento arcaico de associar a arte ao belo, premissa que caiu por terra havia pelo menos dois séculos.

Seleção preconceituosa
A performance de Priscilla sobre a foto do deputado não foi individual. Fazia parte da série “Máfia”, do Desvio Coletivo, espécie de exposição interativa, que foi realizada no dia 23 de abril (uma semana depois da votação do impeachment na Câmara dos Deputados), no vão do Masp (Av. Paulista). Nasceu do que o grupo chama de “estética de emergência”, uma resposta urgente, política e poética a questões da realidade.

Não somos petistas. Somos um grupo de artistas de esquerda. E o PT é centro desde que chegou ao poder executivo. Nossa ação era em defesa da democracia e contra ao descalabro de se elogiar a tortura. O que fizeram com Priscilla foi uma covardia. Eram 38 performers atuando em conjunto e só colocaram na rede o vídeo dela. Não há dúvida que o ataque foi seletivo e de gênero"
Marcos Bulhões

Bulhões conta que Priscila escolheu a foto de Bolsonaro por indignação ao ataque à tortura. No dia da apresentação, todos deveriam cuspir em 38 parlamentares que tinham votado pela cassação e eram investigados. Na rua, abriam espontaneamente espaço para a população participar. Foi Priscilla quem sugeriu urinar na foto. O grupo aprovou. O ato de defecar veio no calor da performance.

Uma mulher passou, cuspiu e me instigou. Disse que cuspir era pouco. Aí, veio o desejo de defecar. Foi natural"
Priscilla

Priscilla Toscano precisou de ajuda profissional para não engatar fobias de pânico. Agora, retoma a vida. Está bem para continuar seu trabalho de multiartista. Gravou o vídeo “Concreto”. Em Brasília,  filmou duas performances inéditas tendo como cenário os monumentos do poder. Em breve, será lançado um minidocumentário sobre a perseguição política, feito pelo Mídia Ninja. É uma guerreira. Não é fácil sobreviver ao caça às bruxas desses sombrios tempos.

Confira, em primeira mão, a performance “Concreto”

Conheça as performers que inspiram Priscilla Toscano.

Pioneiras:

VALIE EXPORT – austríaca

Shigeko Kubota – japonesa

Ana Mendieta – cubana

Contemporâneas:

Rocío Boliver

Milo Moiré – suíça

Megumi Igarashi – japonesa

Assista ao vídeo oficial de “Máfia”

performancecena contemporânea 2016priscilla toscano
 


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