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Fora Cunhaaaaaaaaaaaaaaa!"

O grito de felicidade ecoou da janela do apartamento 503, onde moram Edu e Carlos. O casal de namorados ligou o som alto e transformou o apartamento num baile de carnaval.

Enquanto tocava “Xô, Satanás!, os dois comemoravam a queda de um parlamentar que perseguiu os direitos dos cidadãos homossexuais. Foi Cunha o responsável por levar à presidência da Comissão dos Direitos Humanos e Minorias o pastor Marcos Feliciano, aquele que enfrenta, atualmente, uma acusação de estupro.

Do apartamento 704, Dalva não aguentou a festança e desceu em passos largos para a folia do 503. Levou cervejas geladíssimas, uma bandeja de frango assado do almoço de domingo e entrou pela sala sambando como se estivesse na quadra da Mangueira.

Vou festejar, vou festejar, o teu sofrer, o teu penar"

Dalva tem um filho de 16 anos preso por assalto à mão armada. Ela sentiu na pele a luta do rapaz para não enveredar por outras formas de crime. Viu de frente a falência do Estado na guerra para reabilitar jovens em delito e experimentou a dor do desprezo quando Cunha trouxe à baila a pauta de redução da maioridade penal. Se dependesse do deputado cassado, o filho de Dalva estaria dividindo a cela superlotada com condenados adultos por crimes diversos.

Enquanto Dalva, Edu e Carlos davam volta e meia no salão, Viviane e Aline (mãe e filha do 1002) entraram sacudindo as saias que nem ciganas. Aline está recuperada de uma terrível experiência de estupro, que a levou a trauma profundo. Foram dias de tormenta em que mãe e filha naufragaram no terror de uma gravidez indesejada.

Felizmente, Aline não engravidou. Posteriormente, teve uma crise nervosa quando Cunha propôs o projeto que criminalizava qualquer pessoa que ajudasse ou induzisse uma mulher a praticar o aborto oriundo do estupro.

Do 401, Marcos, Celinha, Marcos Júnior e Ester trouxeram um quilo de batatas para fritar e servir aos amigos carnavalescos. Recentemente, a família emendou diversas manifestações contra a corrupção e pela reforma política urgente. Juntos, eles caíram na farra:

Já é carnaval cidade, acorda pra ver/A chuva passou cidade e sol vem aê"

Vibravam com a queda de um parlamentar, que, além das acusações de corrupção, tentou legalizar a doação de empresas para as campanhas (fonte inesgotável de mau uso do dinheiro).

Foi nessa hora que Thalia, Samanta e Kelly, fantasiadas de odaliscas, serpentearam sala adentro com um bolo de chocolate em mãos. Faziam biquinho em coro para cantar “Alalaô”. As amigas travestis desceram do 904 rebolantes ao saber que Cunha agora era um ex-todo-poderoso estatelado ao chão. Elas viveram dias de angústia quando ficaram diante da proposta do Estatuto da Família, defendido com unhas e dentes por Cunha, que eliminava as cidadãs trans dos direitos constitucionais.

A festa seguia pela madrugada e o Fora Cunha tinha virado um autêntico grito de carnaval quando o síndico Miguel entrou de rompante no apartamento. Nesse instante, todos estavam a fazendo um autêntico trenzinho carnavalesco. Diante da cena, a autoridade máxima do condomínio, que chegou disposta a multar o casal Edu e Carlos, jogou o bloco de advertências para o alto e caiu na folia sem hora para acabar.

Amanheceu e o sol banhou o apartamento 503 de tanta luz, que os últimos foliões voltaram cantarolando “Fora Cunha” para seus ninhos de felicidade"

Eduardo Cunha agora é só cinzas, esperando os ritos finais do enterro de sua vida pública que envergonha os moradores do Condomínio Brasil.

Eduardo CunhabrasilPolítica
 


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