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Reza a lenda que, com duas baquetas nas mãos, um exímio instrumentista faz com que a estrutura de tambores e pratos voe diante dos olhos dos espectadores. O brasiliense Ticho Lavanère é um dos músicos que confirmam essa mítica.

Por diversas vezes, fez a plateia esquecer que ele estava fisicamente fixo a um banquinho. Na tarde do Dia das Crianças (12/10), o músico foi além numa experiência singular: dançou com o ator e bailarino Cristhian Cantarino como se, juntos, formassem um contemporâneo duo.

A performance “Batterie”, do coreógrafo francês David Wampach, uma das atrações do Movimento Internacional de Dança (MID), ocupou os jardins do CCBB e, num curto tempo, fez com que o espectador se transmutasse da ideia de que Ticho Lavanère e Cristhian Cantarino eram dois corpos distanciados, que ocupavam territórios riscados ao piso negro posto ao chão.

Miguel Ribeiro/Divulgação MID
Sem nenhum contato físico, eles gradativamente foram interagindo um com outro: movimento e som; bateria e corpo. Não havia uma lógica de concatenar movimento com ritmo. A improvisação de cada um era o fino e arriscado fio condutor daquele inusitado encontro.

David nos deu uma três instruções claras de como agir e só. A partir daí, tudo pode acontecer"
Ticho
Posso me conectar e me desconectar da bateria, que deixa de ser um elemento fixo para se tornar um forte contraponto para meus movimentos"
Christian

Com os troncos recobertos de creme de barbear, como se fosse um figurino francês rococó ou a cabeleira de Mozart, Ticho e Cristhian se envolveram progressivamente um com o outro, num toque de corpos imaginários. Crescente e livre como um jazz, a dança-música tornou-se uma segunda pele entre os dois.

Miguel Ribeiro/Divulgação MID

À medida em que a energia aumentava, esse creme efêmero se desmanchava misturado ao suor, escorregando pelos corpos e descendo ao chão, criando uma zona de instabilidade explorada intensamente pela dupla, em graus de dificuldades diferentes. Para Cristhian, o desequilíbrio e o risco de quedas se transformaram em potencial elemento de criação.

Miguel Ribeiro/Divulgação MID

Nesse momento, os limites dos quadrados desenhados no chão negro já não existiam. Ticho e Christian eram uno e David, em meio a centena de espectadores, vibrava de felicidade como se estivesse diante de dois bailarinos livres e envolvidos por um som apaixonante.

Miguel Ribeiro/Divulgação MID

O coreógrafo David Wampach

Não, não para. Continua Ticho, segue dançando"
David Wampach

O grito de David saiu de uma plateia, formada por muitas crianças, que testemunhara a quebra de fronteiras entre corpos que se movimentam: um dos pilares da dança contemporânea. Para realizar o dueto em Brasília, a dupla se encontrou uma única vez fisicamente (houve uma conversa por Skype). Após a apresentação, estavam unidos como um coeso grupo.

Estava nervoso. Sou um bailarino novo que ficaria diante de um experiente e respeitado coreógrafo estrangeiro. Mas David nos acolheu com generosidade"
Christian
A experiência inesquecível de conexão e desconexão, como se a gente dançasse de verdade, foi conduzida dentro de uma liberdade de criação que David Wampach nos propôs"
Ticho

Feliz, David Wampach continua em Brasília para apresentação do conceituado “Sacre”, no qual, além de coreografar, faz duo com a bailarina Tamar Shelef.

“Sacre” tem sessões sábado (15/10), às 21h, e domingo (16/10), às 20h, no Teatro 1 do CCBB. A programação completa do MID está no site do festival.

 

Movimento Internacional de Dança MID
 


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