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Um dos maiores iluminadores do teatro brasileiro, Aurélio de Simoni passou os últimos 12 dias em Brasília. Mais precisamente no Teatro I do Centro Cultural Banco do Brasil, onde criou a luz cênica de “L, O Musical”. Quando chegou ao local, o mestre avisou:

Eu sou um emendador de fios. Ligo lâmpadas"
Aurélio de Simoni

O bordão é uma marca e mostra como ele não foi engolfado por sua capacidade sensível de fabular mundos. Aos 79 anos, Aurélio de Simoni é um dos artistas cênicos que colocaram a iluminação no status de arte.

Na hora de gravar, sempre digo: ‘tenho um pincel em uma das mãos e as tintas na outra’"
Aurélio de Simoni

O processo de criação de Aurélio dialoga com a construção da cena em ensaios. Ele assiste, grava e propõe caminhos únicos. Conversa com a direção sem criar contradições. Ao contrário, a luz amplia a teatralidade das cenas. O elenco entra na luminosidade quase sem perceber.

Nunca tinha feito um ensaio técnico de luz dessa forma. Quando a gente percebe está na marca"
Gabriela Correa, atriz

A atriz caminha e Aurélio pinta os passos. Sem formação acadêmica em teatro, Aurélio conhece a dimensão da natureza teatral como poucos. Ouvir cada proposição dele no ensaio é uma aula. Até o que parece ser óbvio é dito com autoridade cênica que precisa ser ouvida com respeito.

Aprendi muito na montagem. Cada afinação proposta era uma aula"
Rodrigo Lélis, ator e iluminador

Quem conhece Aurélio de Simoni pede para que ele escreva um livro de memórias. O iluminador detém bastidores que ajudam a entender o crescimento do teatro brasileiro. É dele, em parceria com Luiz Paulo Nenen, a luz de “As Lágrimas Amargas de Petra von Kant”, montagem marcante do texto de Fassbinder (1982), que reunia em cena Fernanda Montenegro, Renata Sorrah, Juliana Carneiro da Cunha, Rosita Thomaz Lopes, Joyce Oliveira e Paula Magalhães.

Aurélio guarda histórias preciosas das coxias. Uma delas foi de grande importância. Ele foi à administração do teatro resolver um problema e, ao chegar lá, encontrou Fernanda Montenegro ao telefone, dizendo: “Mãe, hoje é a estreia. Reze por mim”

Naquele momento, Aurélio entendeu a fragilidade do teatro, arte efêmera, ao ver uma consagrada atriz com o frio na espinha e a dor das incertezas antes de entrar no palco.

Um episódio de “Petra” foi mais trágico, digamos. Na cena final, Fernanda Montenegro subia no recamier para o “voo final da personagem”, diante de uma claraboia iluminada. Havia, em seguida, um blecaute e a atriz descia no escuro para se posicionar no agradecimento.

Depois de um ano operando sem problema algum, houve a troca da mesa de luz. Chegou o equipamento novo e, na hora dessa cena, Aurélio esqueceu de acionar um procedimento. O “erro” revelou Fernanda Montenegro de costas, numa posição bastante desconfortável.

“Ao fim da sessão, ela veio à cabine e, num tom plácido, perguntou o que aconteceu. Expliquei e ela me disse: ‘Amanhã, isso não se repetirá’. E não se repetiu. Depois, fui convidado por ela a fazer a luz de ‘Fedra’ e viajar o país. O que aprendi com isso. O técnico de teatro não tem o direito de errar. Se o fizer, põe em fragilidade toda uma criação”.

Aurélio era militar até o dia em que foi ao teatro levar o filho Marcelo, em 1976, para ver “Ambrósio, o boneco”. Aline Molinari, à época sua companheira, estava em cena. Ele chegou e acabou ajudando na produção. Virou assistente e não demorou para virar operador de luz. Em 41 anos de trabalho, iluminou mais de 700 peças. Trabalhou com artistas de porte, como Paulo Autran e Rubens Corrêa.

De Brasília, Aurélio foi a São Paulo para criar a luz do novo trabalho de Moacyr Chaves, diretor com quem desenvolveu uma parceria de décadas.

Iluminar nada mais é do que mostrar o do outro. Entender a filosofia da criação do companheiro. Teatro é coletivo por excelência"
Aurélio de Simoni
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