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A cena da foto que abre esta coluna, com a atriz Camila Guerra no musical “Eu Vou Tirar Você Deste Lugar – As Canções de Odair José”, requer quase um blecaute no teatro. A luz está unicamente no rosto na intérprete. Tudo mais está escuro.

Se nesse exato instante, um espectador tocar na tela do seu celular destrói-se a arte que se ergue no palco"

As pessoas ao lado dele serão violentadas em sua concentração. A atriz, que estava absorta em manter o corpo, a intenção do olhar e o canto, é arrancada de seu estado de interpretação. Os operadores da cabine de luz e som entrarão num processo irritadiço. O diretor explode em angústia e nervosismo.

Tudo porque alguém resolveu checar uma mensagem escrita: Boa noite, tudo bem?"

Não, não se pode falar. Entrar numa sala de teatro é uma atitude política diante da vida corrida. Sempre foi assim. Na Grécia e em Roma, discutiam-se os males da humanidade nas arenas. Nos tempos de Shakespeare, o espaço teatral transformou-se num poderoso exercício de imaginação. Na ascensão da burguesia, era espelho para justificar essa nova ordem mundial. Na Europa ameaçada pelo nazismo, a relação entre palco e plateia virou um front de ideologias.

Se eu compro um ingresso e entro num teatro, estou disposto a romper com o tempo corrido lá fora"

Por algumas dezenas de minutos (às vezes, horas), estarei desconectado com as notícias que, hoje, explodem em nossas mãos. Não ficarei sabendo das felicidades alheias nem dos seus dissabores. Não vou checar os nudes mais recentes nem ouvir áudios (quase nunca engraçadíssimos).

A sala de teatro é um espaço de contemplação. Ali, no palco, outros mundos se abrem para que o espectador se desloque do seu dia a dia e caminhe por espaços imaginários. Requer um acordo tácito de foco e de concentração entre público e artistas, para que a narrativa torne-se crível aos olhos.

Durante meses, artistas e técnicos mergulham no processo de criação com esse objetivo. São estudados, minunciosamente, a intensidade e o posicionamento da luz que incide naquela cena em que só interessa mostrar a face angustiada de uma atriz que experimenta a maior solidão do mundo.

Se justamente, nesse momento crucial para a trama, algum espectador quebrar o acordo e abrir um clarão de luz em volta de sua poltrona, toda a construção da cena escoa pelo ralo, como leite derramado"
Renato Mangolin/Divulgação

“Gritos”: espetáculo à meia-luz

 

Recentemente, o produtor-executivo do espetáculo “Gritos”, que esteve em cartaz no CCBB, foi à boca de cena explicar que a montagem foi concebida à meia-luz e teria o processo comprometido caso alguém disparasse a luz do celular.

Como artista de teatro, estou convicto que precisamos estabelecer essa relação pedagógica com as gerações que nascem com tablets na mão. É preciso ir às escolas para falar sobre a natureza do teatro. Fizemos esse trabalho recentemente na região Norte (Macapá, Rio Branco e Porto Velho), na itinerância da montagem “Eros Impuro” (que aborda um tema denso, o abuso sexual), antes dos alunos se deslocarem ao teatro.

O resultado foi surpreendente. Foram mais de mil estudantes que viram a peça com os olhos vidrados no palco e os celulares esquecidos nas mochilas"
Sergio Martins

Estudantes assistindo a “Eros Impuro”: preparação educativa

 

Essa situação é também um desafio para os artistas. É preciso estudar essa nova natureza de espectadores, que tem olhar fragmentado e abre-se para mil e uma janelas de informação simultâneas. Esse espectador é, hoje, o “x” do problema das artes efêmeras. É preciso deslocá-lo desse sedutor mundo da comunicação digital para dentro da narrativa artesanal.

Mais do que nunca é preciso quebrar a cabeça para conduzir a plateia, de forma inteligente, ao rito milenar que é o fazer teatral. Isso requer suor, desejo e talento"

 

“Eu vou tirar você deste lugar – As canções de Odair José”
Sábado (18/3), às 21h, e domingo (19), às 19h, no Teatro Paulo Autran (Taguatinga, CNB 12, AE 2/3). Dias 25 (sábado), às 21h, e 26 (domingo), às 19h, no Teatro Newton Rossi (SESC Ceilândia, QNN 27, AE, lote B). Dias  1º de abril (sábado), às 21h, e 2 (domingo), às 19h, no Teatro Newton Rossi (Gama, SIND QI 1). Entrada franca. Duração: 90 minutos. Não indicado para menores de 12 anos.

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