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Carmen Silva morreu aos 71 anos de ataque cardíaco na última segunda-feira (26.09) e a repercussão Brasil afora foi pontual nas redes sociais, no noticiário televisivo e nos principais jornais. Uma das grandes intérpretes brasileiras, com sucessos populares nos anos 1970 e 1980, partiu sem direito a homenagens à altura de seu talento e de uma trajetória de batalha incomum.

Empregada doméstica que calçou um par de sapatos pela primeira vez aos 15 anos, Carmen Silva enfrentou uma maratona para alcançar a fama, numa época que alcançar o estrelato combinava com merecimento. Na década de 1960, venceu o concurso “Um Cantor por um Milhão, um Milhão por uma Canção”, programa produzido por Miéle e Ronaldo Bôscoli, que tinha Tônia Carrero, Paulo Autran, Walter Foster e Solange Dutra Noveli se revezando como apresentadores. Patrocinada pela loja O Rei da Voz, a atração da Record era sucesso na ascensão da tevê brasileira.

Foi limpando e arrumando a casa das patroas em São Paulo que Carmen despertou para a possibilidade de cantar para as multidões. Filha de agricultores muito pobres no estado de Minas Gerais, a moça não tinha sonhos de ser diva, mas seduzia plateias íntimas cantarolando em cozinhas alheias. Quando o mundo da música se abriu diante de seus olhos, os empresários a queriam cantando sambas. Carmen achou estranhou, negou essa tentativa óbvia de enquadramento. Por que cantaria o ritmo dos morros? Ela gostava do romântico, dos boleros. Isso numa época em que a elite intelectual não tinha fatiado a música brasileira em estigmas como “o brega”.

Dona de personalidade forte, Carmen seguiu seus desejos. Gravou o que gostava: a seresta, o bolero, o sertanejo do interior. Trazia ainda a força de sua negritude exposta nas capas dos 20 discos, num tempo de difícil aceitação das mulheres negras de cabelos trançados e volumosos. Um dos discos mais elogiados pela crítica, “Pérola Negra”, deu a Carmen a alcunha que a valorizava como intérprete. Sua morte em silêncio nos invoca um debate: por que nossos astros negros são esquecidos ao longo de suas trajetórias?

Ano passado, Grande Otelo, o maior astro negro do país, teve seu centenário sem repercussão no Brasil. Grandes nomes do teatro, da música e das artes visuais da primeira metade do século 20 estão completamente soterrados nos escombros da memória. O que chegou do grande Chocolate, grandioso cômico e cantor, sucesso das chanchadas e revistas? E Benjamin Oliveira, o primeiro palhaço negro do Brasil? E Xistus Bahia, ator, músico, cantor e compositor da primeira música gravada no Brasil, o lundu “Isto é Bom?”. A lista dos esquecidos é enorme.

Há uma evidente falta de estratégia de cuidar da memória nacional e isso tem a ver com um sistema de educação pragmático de conteúdo muito mais voltado para a história e valores ocidentais do mundo do que do Brasil. Por uma relação de valores, tudo essa questão se agrava quando ficamos diante dos nossos artífices negros, muitos esquecidos em vida como Carmen Silva, que dedicava a carreira ao gospel, que descobriu numa viagem aos Estados Unidos. Uma das belas versões do clássico “Segura na Mão de Deus” é dessa preciosidade de voz.

Se ela fosse norte-americana, seria endeusada como são as grandes vozes e talentos. Aqui, mereceu obituários burocráticos. Uma das mais singelas (e melancólicas) homenagens foi a do produtor e pesquisador Thiago Marques Luiz, um dos mais respeitados do país.

Ouça, na íntegra, o LP “Sertanejo”, elogiadíssimo pela crítica

O que pouca gente sabe é que Carmen Silva foi a primeira cantora negra a entrar para as paradas de sucesso (e vender disco de verdade), isso já no começo dos anos 1970. O repertório de grande identidade popular, longe dos compositores da elite, encontrou, na sua voz poderosa, um sem números de sucessos que jamais aconteceriam no Brasil de hoje. Faleceu e já estava esquecida há pelo menos 30 anos"
Thiago Marques Luiz

TOP 5 de Carmen Silva

1 – “O Destino nos Separou”

2. “Fofurinha”

3 – “Ser Tua Namorada”

4 – “Adeus Solidão”

5 – “O Amor é um Bichinho”

pérola negracarmen silva
 


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